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Publicado em maio 27th, 2011 | por Revista Naipe

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OS 15 MINUTOS DE FAMA ACABARAM

[Por Everson Antunes]

Você meu caro amigo, leitor ou leitora, já postou vídeos no youtube e enviou todo feliz para seus amigos?

Gosta de postar suas preferências para todos verem no Twitter e Facebook? Se acha inteligente e antenado a ponto de considerar sua opinião tão relevante que merece ser conhecida pelos outros? Você assiste aos mais assistidos e comenta nos mais comentados? Trata de repassar para seus amigos tudo que enviam para você antes que outros o façam, só para ter o prazer de ser o “primeiro” a lançar um viral?

Não se sinta ridicularizado, na verdade você simplesmente está participando da vida (pós) moderna. Coitados são dos marginalizados nas periferias tecnológicas do mundo; pobres alienados e ignorantes do universo de informação disponível a quem tem acesso a elas. E não falo apenas dos computadores com internet, mas das TVs a cabo e abertas, das revistas e jornais nas salas de espera e dos telões informativos nos ônibus; falo também dos smart phones e celulares comuns, dos netbooks com wi fi que invadem bibliotecas, shoppings e até parques ao ar livre. Falo de qualquer meio (mídia) de comunicação.

A Sociedade do Espetáculo é um livro de 1967 do escritor radical francês Guy Debord que versava sobre como a sociedade capitalista transformava a vida e a arte em entretenimento, ou seja, um passatempo que mostrava as pessoas uma imagem espelhada daquilo que elas almejavam mas não podiam alcançar. O sonho das estrelas, os carros caros, a vida de luxos… Mas não apenas isso, Debord fala de muito mais; ele fala de uma contemplação passiva do mundo.

Não, não pense que aqui vai ter mais um intelectual chato querendo esbravejar seu ódio a banalidade disseminada pela praga da tecnologia. Nem Debord cai nesse clichê. O buraco negro da alienação está mais embaixo. Tanto a TV como a internet apenas espelham a nossa sociedade e suas relações. Ou seja, nós e o nosso “sistema”. Sistema que amamos odiar e amamos demonstrar isso nela própria.Bom, isso que aparece nas telas das TVs, notebooks, iPads, não espelha a mim especificamente. Nem a você (eu acho). O problema é que a sociedade do espetáculo é tão democrática que tem espaço para tudo e todos. Até para quem não gosta dela. Tem espaço até para o intelectual chato xingar. Esse espelho do qual falo é como um caleidoscópio, fragmentos da sociedade, só que cada vez mais gente pode ter um fragmento só seu. E ficar feliz com isso.

Guy Debord encabeçava a Internacional Situacionista, um grupo radical dos anos 60 que produziu algumas das intervenções mais contundentes dos meios artísticos. Os integrantes da Internacional Situacionista vinham de diversas áreas: escritores, pintores, arquitetos; e tinham como ambição criar um espaço urbano onde os indivíduos pudessem participar ativamente do jogo lúdico da arte. Complicado? Eles não faziam questão de serem claros, além de estarem conscientes das dificuldades de realizar tal projeto. A intervenção em si, as situações efêmeras (daí situacionismo, entendeu?) criadas é que eram importantes.

Foram pioneiros da street art, criaram slogans que se popularizaram nos grafittes de uma Paris ocupada por estudantes nos acontecimentos seminais do Maio de 68. Entre outras coisas Debord e Cia teorizaram sobre como utilizar os próprios meios de comunicação em benefício próprio, através da inversão de expectativas e muita polêmica.

Antes deles, lá pela década de trinta, o filósofo alemão Walter Benjamin escreveu sobre a perda da “aura” da obra de arte devido às novas possibilidades técnicas de reprodução. E isso não era ruim. Em suma, a arte antigamente era coisa aristocrática, artistas produziam obras únicas e quase impossíveis de copiar. Somente ricos com grana para pagar por essas obras podiam usufruí-las. Depois da revolução industrial e inventos como fotografia e cinema, podia-se fazer quantas cópias se quisesse da mesma obra barateando-a. Agora sim, o povão teria acesso as obras artísticas antes fechadas nos museus e nas coleções particulares. E poderia criar e distribuir suas próprias obras de arte.

Para os Situacionistas a arte foi transformada por essa própria estrutura do capitalismo em mais uma mercadoria. Isto se evidenciava tanto nos leilões de arte moderna, quanto nos desings de produtos industrializados. Era uma arte conformista, inserida no sistemão. Para contra-atacar, os situs (apelido carinhoso dado por alguns historiadores de arte) criaram a prática do detournement (que poderia se mal traduzir como “desvio”), ou seja, aproveitar imagens prontas da publicidade e da cultura midiática mudando seu sentido. Usando colagens de histórias em quadrinhos com textos anarquistas ou justapondo imagens publicitárias de grandes marcas com a guerra do Vietnam.Quando Duchamp exibiu um urinol numa exposição de arte em 1917, em sua famosa obra A Fonte, abriu um precedente. Artistas da Pop Art como Andy Warhol e Linchestein faziam algo parecido. Mas aqui havia um propósito bem diverso. A ideia era criticar a própria origem comercial da obra. Artistas de rua contemporâneos, como Banksy, são especialistas do detournement.

Cultura recombinante

Voilà! Chegamos a era da internet, dos mashups, dos samplers, dos vídeos editados em casa, das paródias e cópias bastardas. É a cultura recombinante. Por um lado, o ápice do que os situacionistas pregavam, mas também o ápice da sociedade do espetáculo.

Quarenta anos depois e as 221 teses do livro A Sociedade do Espetáculo tem se corroborado com o mundo moderno. Aliás, no prefácio de uma reedição em 1991, o autor se orgulha de não ter mudado uma só palavra. Ele não previra a internet (Debord cometeu suicídio em 1994), mas a popularização dos meios de comunicação abriu inúmeras possibilidades, e a única que parece se confirmar é a de que tudo vai continuar na mesma. As pessoas têm câmeras fotográficas e de vídeo, e espaço de sobra para criar e distribuir coisas novas na internet, mas ficam felizes em reproduzir mais do mesmo.

O maior trunfo da sociedade do espetáculo é a ilusão que você participa dele. E você “realmente” participa dele. Todos participam. A própria popularização das mídias, a possibilidade de se criar conteúdo e disponibilizá-lo a baixo custo nos dá essa possibilidade. E dentro dessa imersão, se poderia desestabilizar essa estrutura. Era a intenção dos situs.

Quer exemplos? Você já deve ter visto a última (por enquanto) grande febre da internet: o vídeo de A Banda mais Bonita da Cidade tocando a música Oração. O singelo clipe feito por um grupo de amigos num plano único, sem nenhuma grande ferramenta propagandística, nada de lançamento na TV, ou críticas nas revistas, “estourou” nas mídias sociais de maneira quase despretensiosa. Ou pelo menos tão despretensiosa quanto qualquer vídeo desse molde. Mérito deles? Pode ser, mas o número de admiradores é tanto quanto o de detratores, e se somarmos os dois, temos toda a repercussão que eles conseguiram, com mais de 2 milhões de visualizações. Ou seja, na internet nunca valeu tanto a máxima “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

E falando de detournements e cultura recombinante, esse exemplo rende mais ainda. Oração foi assumidamente inspirado no clip Nantes da banda norte-americana Beirut, em que num plano seqüência os músicos vão aparecendo enquanto o cantor desce uma escadaria. E estão surgindo várias paródias e reinterpretações como: A Banda mais Repetitiva da Cidade, A Segunda Banda mais Bonita da Cidade, A Banda mais Bonita da Internet, e até Seu Madruga do Chaves canta a baladinha em a Banda mais Bonita da Vila.

Revolucionário? No sentido que os Situacionistas queriam, com certeza não. Mas as mudanças na vida cotidiana com a interpenetração desse mundo imagético são mais do que evidentes. Chovem críticas reclamando da tal “inclusão digital”, vinda de partes mais reacionárias da sociedade. A popularização do acesso fez com que pessoas de classes sociais menos abastadas (e afastadas da cultura dita “intelectual”) trouxessem seus gostos mais populares, e na maioria dos casos, relacionada com a indústria cultural que já dominava TVs, rádios e revistas. Ou seja, voltamos ao mesmo problema.

A tecnologia está aí e não faz juízo sobre o que fazemos dela. Como diria o velho ditado, “gosto não se discute, se lamenta”. De qualquer forma, uma coisa que Debord e os Situacionistas queriam ela realizou: cortou a mediação entre a arte e o público, quase os confundindo. Não dependemos mais das grandes empresas midiáticas monopolizadoras para encontrar arte ou informação. Tudo está disponível. Só dependemos mesmo do bom senso e discernimento de cada um. Talvezseja esse exatamente o problema.

E Andy Warhol foi o único profeta que conheço cuja profecia realmente se realizou. Se não sabe quem é Andy Warhol procure no Google.

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2 Responses to OS 15 MINUTOS DE FAMA ACABARAM

  1. Léo T. Motta says:

    Acho que escorregou um pouco no final mas, no mais, um puta dum belo texto! Meus parabéns. Ótimo tema, muito bem desenvolvido, ótimas referências e ótima reflexão pros dias de hoje. Ah, se as pessoas fossem buscar metade do que tu escreveu aí..

  2. renato sá says:

    Muito Bom!

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