Pirão

Publicado em abril 16th, 2014 | por Nathan Mattes Schäfer

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PARA TOMÉ, NO PRESÍDIO

Não teve um rei que dizia: “meu reino por um cavalo”?

Tomé, eu dava meu reino — vá lá que nem muda de roupa eu tenho, vá lá. Finjo que sim, tenho reino. Tendo um, entregava todinho por um banho no Madeira. Um banho só que fosse me fazia feliz. É, tem isso: sendo rei podia tomar quantos banhos de rio quisesse, porque aí eu era dono de tudo e jamais caía, e se caísse me soltavam. Ou nem prendiam, que rei é rei e nunca perde a majestade, por cavalo ou banho.

Pergunto: ter reino e trocar por mergulho é negócio? Pra quem fica lá fora, não; pra quem pena nesse calor da porra, está muito bem trocado! Ficar preso lá no sul que é outra história. Ou, ainda, quem está solto no sul é que vive. Lá o tempo é sereno e ainda tem cada uma galega boa que só pegando. Umas alemoas taludas, com carne que não acaba mais, e não essa tilangada que só o cão igual se vê por aqui. Até em Mato Grosso, logo ali, a mulherada já vai melhorando.

Parece que é isso: quanto mais se desce melhor fica. Se for descendo, descendo, até chegar nos Estazunidos é que o negócio fica bom, que lá é frio e só tem galega com cada lapa que não tá no gibi. Ou está, que gibi é coisa de gringo. Tomé, seu cabrito burro, tem que saber que os Estazunidos são o paraíso na terra. Só que melhor que o paraíso, que lá pode sacanagem. Você, se não tivesse sido sangrado, aposto que queria saber de onde sai essa falação toda. Respondo: viajei muito.

Até no Paraná eu estive. E é longe, muito longe. Outro mundo quase. Me disseram que o Paraná faz parte de São Paulo, mas não tenho certeza. Tonico Tinhoso é do Paraná, ele até poderia contar como são as coisas por lá. Mas, não seria correto por dois motivos: o primeiro é que você está morto; o segundo é que foi ele quem encomendou o serviço. É sabido que relações indecentes com gente morta dão um azar dos caralhos.

[Foto: Stefano Corso] 

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Sobre o Autor

Escreve em cadernos sem pauta, remendando até não poder mais. Acredita na salvação em Pedro Páramo e na vida como caminho ondulante: "sube o baja según se va o se viene. Para el que va, sube; para él que viene, baja."



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