Pirão (l to r.) Newcomers Kara Hayward as Suzy and Jared Gilman as Sam in Wes Anderson's MOONRISE KINGDOM, a Focus Features release.

Publicado em outubro 31st, 2012 | por Leandro Pitz

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PEQUENOS MUNDOS

Em seu novo filme, Moonrise Kingdom, que abriu o festival de Cannes este ano, Wes Anderson conseguiu superar o seu tão reconhecido poder de encantamento, apesar de retomar, como todos previam, sua mesma boa e velha fórmula maneirista de falar sobre as mazelas de uma juventude apaixonada e desajustada.

Usando dos mesmos recursos de clássicos seus, tal como Os excêntricos Tenenbaums, Vida Marinha com Stevie Zizou e O Fantástico Sr. Raposo, e em parceria com Roman Copolla, construiu mais um de seus pequenos mundos fictícios onde a complexidade da vida adulta e infantil parecem entrelaçadas de forma inseparável.

Seus fiéis detratores de galocha já poderiam torcer o nariz, dizendo que mais uma vez o que temos ali é apenas Anderson com seu pequeno gabinete de curiosidades da infância perdida, mas é claro que seu “colecionismo” nunca chegou perto de ser vazio e sim lindamente capaz de sustentar um universo impregnado de detalhes poéticos, com muitas possibilidades de leitura.

Seu novo mundo agora é a bucólica Ilha de New Penzance, na costa da Nova Inglaterra. Enquanto lá fora acontecem as carnificinas de uma guerra do Vietnã, Anderson faz seu deslocamento, retratando a vida de garotos vivendo num fantástico acampamento de escoteiros cercados por uma paisagem quase mítica. A metáfora não poderia ser mais perfeita para se falar da guerra interna em que vive um menino na passagem para a adolescência.

Enquanto lá fora acontecem as carnificinas de uma guerra do Vietnã, Anderson faz seu deslocamento para a guerra interna em que vive um menino na passagem para a adolescência

Sam (Jared Gilman) é um jovem escoteiro da divisão Kukhi que, vivendo as dores de um garoto orfão e especial, foge do acampamento em busca de Suzy (Kara Hayward), uma garota rebelde que vive numa família completamente desestruturada, coberta de mentiras. Fugindo em direção ao desconhecido, eles mobilizam seus pais (Frances McDormand e Bill Murray), o chefe dos escoteiros (Edward Norton), um solitário policial (Bruce Willis) e uma assistente social de aspecto quase diabólico (Tilda Swinton) para atravessarem a misteriosa Ilha em busca dos fugitivos apaixonados. O pequeno Sam, com seus talentos de escoteiro, e a bela Suzy, com seus binóculos mágicos, fugirão de todos os demais, e, descobrindo um ao outro, tentarão conquistar o encontro mais absoluto, o lugar quase impossível, um reino do nascer da lua.

Tal qual uma criança que ao juntar seus preciosos brinquedos constrói seu pequeno mundo de refúgio, Anderson nos presenteia com seu mais novo micro-universo assumidamente artificial, mas apenas para mostrar que nem mesmo ali seus personagens serão capazes de encontrar o seu lugar. Em suas estranhas fábulas a errância não chega ao fim e está sempre acompanhada de um mal-estar inominável. É aquele velho mundo melancólico e rebelde de uma juventude ao estilo de Salinger, que Anderson parece indiretamente citar em quase todos os seus filmes. Só que a violência aqui é aliviada com seu colorido beirando o non-sense, já que o humor em seus filmes está sempre garantido, assim como a delicadeza.

Como de costume, a mise-èn-scene e os personagens são estranhamente charmosos. O modo com que homenageia seus diretores preferidos numa releitura de suas técnicas são algumas assinaturas sempre presentes: tomadas em câmera lenta ao modo de Scorsese, assim como as vistas fechadas de topo sobre os objetos, enriquecendo a construção de seus personagens tão cheios de peculiaridades. A grande angular de Welles, os cortes ao modo de Truffaut. Impossível não lembrar da pequena Lolita de Kubrick em seus momentos mais insinuantes, ainda que sem malícia. Não se deve deixar passar também o fato de que tudo foi filmado em 16mm, para conseguir a plasticidade sessentista tão característica.

Fica por fim evidente o recurso sofisticado com que usa a linguagem das narrativas infantis para criar metáforas da vida adulta. Não apenas para desmascará-la em sua infantilidade e inadequação, mas para simbolizar de uma maneira muito bonita todos seus ritos de passagem, como por exemplo o casamento nada ortodoxo dos pequenos nas vésperas de uma enchente devastadora, ou a descoberta sexual, na cena em que o garoto fura pela primeira vez a orelha de sua amada, oferecendo à ela um brinco feito por ele com um anzol e um pequeno besouro.

Como nas tirinhas de Charlie Brown, as crianças de Anderson sempre são adultas demais e os adultos um tanto infantis. Às vezes estúpidos, ainda que tenham seus momentos de iluminação. Em Moonrise Kingdom o mesmo acontece, e não apenas porque os meninos jogam ludo ou estudam com deleite e atenção a composições clássicas em velhas vitrolas, mas porque são capazes de tomar uma cerveja junto a um adulto e dignamente ensiná-los algo a respeito do amor.

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Sobre o Autor

É formado em Design Gráfico e deformado em literatura e cinema da melhor forma possível. Prefere o grande silêncio mas sabe que pra isso é preciso falar. Convide-o pra beber mas não pergunte o que está pensando.



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