Pirão forrestgumpdentro

Publicado em julho 22nd, 2011 | por Bárbara Dias Lino

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PESSOA-PERSONAGEM

Sentados em um grande círculo, alunos da primeira fase do curso de Artes Cênicas da UDESC se apresentavam.

Eram loiros, morenos, cabeludos, mas nenhum deles chamava mais a atenção que Joelma. Quadril projetado para frente, sotaque bizarro e olhar de “nunca fui tão feliz na vida” sinalizavam algo estranho. Aos poucos os alunos começaram a achar a colega bastante diferente. Gritos demais, falas bobas demais. Alguns sentiram pena, outros acharam graça da menina que mal sabia diferenciar direita e esquerda e não acompanhava os exercícios simples passados em sala de aula. Depois de alguns dias os comentários em relação à garota aumentaram – ela não estava na lista dos aprovados do vestibular. Uma louca? Uma intrusa? Uma coitada? Calouros o bastante para em nenhum momento ter desconfiado da brincadeira, os alunos não notaram que Joelma era, na verdade, um personagem representado por um dos veteranos.

Não sei se porque caí na pegadinha dos veteranos uma vez, mas desde então observo as pessoas de maneira diferente. Volta e meia me deparo com situações em que penso: “Não é possível, essa pessoa só pode estar brincando!”. São meninas de sombra verde, batom vermelho e rímel azul; velhinhas de meia e chinelo carregando sacolas de plástico; caras de regata, óculos escuros, dentro de carros amarelos. É o que eu chamo de pessoas-personagem. São pessoas tão estranhas ou tão caricatas que dá vontade de gritar: “Tá, para tudo, já entendi, pode parar de fingir agora”. Mas não, elas são bem reais.

As pessoas-personagem parecem ter ensaiado todas as falas. Fazem gestos, olhares e até pausas de efeito. Parecem se vestir para uma peça de teatro todos os dias. Elas são conhecidas por todos, e as pessoas, quando se referem a elas, dizem “você precisa conhecer o fulano, ele faz uma coisa que você não vai acreditar”.

As pessoas-personagem às vezes chegam ao cúmulo de ter apelido de animal ou comida e um bordão próprio que todo mundo acha engraçado e repete. É comum que a foto dessa pessoa vá parar nos cartazes de festas, que o bordão vire gritos de guerra ou esteja estampado em camisetas. As pessoas-personagem são, sim, espécies de ídolos. Tanto que mesmo depois que se formam ou vão embora elas continuam sendo citadas e os bordões estão lá nas bocas às vezes de quem nem sabe o que está dizendo.

Há também as pessoas-personagem que você encontra na rua, em situações que de tão inacreditáveis dão medo de contar para alguém e passar por mentiroso. Certa vez, turistando pelo Rio de Janeiro fui passear nos bondinhos de Santa Tereza. Enquanto esperava que os passageiros se acomodassem, o policial que fazia a segurança do bonde, encostado e com ares de gente séria, passava fio dental (!) nos dentes. Pedi a ele que um dos meus colegas fosse em pé junto conosco, para não ir pendurado. O policial me fitou de canto, já com os dentes devidamente limpos, deu um meio sorriso e respondeu segurando a arma que levava na cintura: “Não pode ter muita gente aqui. Vai que tem uma troca de tiros?”. Ele estava falando sério.

Há uns anos tive a oportunidade de conviver de perto com alguém assim. Ela fazia vozes estranhas, coisas com o corpo e sempre tinha resposta para tudo. A sensação era de ter um show de stand Up no meio do dia, a qualquer hora. Era engraçado, era incrível, era inacreditável, mas cansou. Acho que existem três tipos de pessoa-personagem. Aquelas que forçam para ser legais, engraçadas e interessantes. Tem as que são surpreendentemente bizarras, como o policial do Rio. E as que simplesmente são tudo isso naturalmente, sem nem se dar conta.

A Joelma na verdade tem outro nome e é a pessoa mais normal do mundo. Hoje, quando a encontro com a postura reta, óculos de grau e dizendo coisas inteligentes não consigo acreditar. Eu fico esperando que ela dê uma risada bizarra, troque os pés ou não entenda o que a gente disse. Dá vontade de tirar os óculos dela e dizer: “Tá bom, para tudo, pode voltar a ser Joelma agora!”

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Sobre o Autor

Filha, sobrinha, neta e tataraneta de comunicadores, aceitou seu carma e formou-se em Jornalismo. Apaixonada por arte e cultura, chegou a cursar um semestre de Teatro na Udesc, mas descobriu que seu lugar é na plateia.



2 Responses to PESSOA-PERSONAGEM

  1. Camila Dias says:

    Pensando de forma romantizada: Ta aí a diversão! Pessoas que tem o dom de sair da bolha, estão nem aí para a Espiral do Silêncio. Bom, o que seria de nós, seres ‘normais’(?) sem eles? ;)

  2. Léo T. Motta says:

    Boa, Bárbara. Conheci vários desses já. Homens, mulheres, novos, velhos.. E vivem dizendo que eu sou meio caricato demais. Será que é o bigode?

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