Pirão paulklee

Publicado em junho 24th, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

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POR QUE MANIFESTAMOS?

[Imagem: Encontro de dois homens, um julgando o outro em posição superior, de Paul Klee]

O que nos une? Por que manifestamos?

Porque ninguém vive sem ao menos uma revoltazinha como, por exemplo, a de carimbar as fuças em qualquer banheiro de shopping deste imenso Brasil; porque o sexo oral será o beijo de língua da primeira metade do século XXI; porque se olharmos a vida como um todo, o MST e o tráfico de drogas estão bastante à esquerda; porque amor é ver todos os rostos de um rosto e a liberdade que você dá para seu filho não pode ser a liberdade que você já supõe pronta; porque, ao invés de levar cachorrinhos tansos para passear, a menina burguesinha poderia estar cuidando de pênis, outras frutas, corações; porque aquele que disse ser o Amor encarnado estava nas ruas, e não em filas de consultório onde se diagnosticarão problemas de junta imaginários ou em puteiros onde se finge conhecer o que é o Gozo; porque, num tempo em que realmente todos fôssemos irmãos, gozar um milhão de vezes com uma pessoa seria absolutamente o mesmo que gozar uma vez com um milhão de pessoas; porque, para os fortes, as sirenes existem também como música; porque existem infinitas violências, crueldades, fraquezas e badernas que se exercitam no silêncio, na resignação, na neutralidade dos que “não fazem mal a ninguém” e deixam o que acontece acontecer, para só mais tarde compensarem a própria inação com bombas que atirarão ou deixarão atirar contra pessoas e lugares que amam; porque um sujeito uniformizado foi pego com uma peça cilíndrica nas mãos enrabando um veado-fêmea do lado de fora de um motel gratuito; porque não se recusam paraísos; porque um dos maiores milagres da civilização, a música pop (ou popular), está inteira, em suas infinitas variações, aos nossos pés no Brasil em 2013;  porque você pode acusar o brasileiro de tudo menos de não ser aflito (e nisto está muito obviamente uma ânsia por ver uma história maior); porque os feios são belos selvagens, explosivos – estão mais para guerreiros do que para dançarinos; porque graças a Deus, ou ao Diabo, há o 2º mundo nos separando do 1º; porque no Brasil a vida cai no chão e qualquer um pode juntar mesmo depois de pisar; porque a voz que grita na rua diz o mesmo que o sussurro que o confortável finge não ouvir em seus pesadelos; porque todo mundo já sabe que os metaleiros têm um coração cu doce; porque, caminhando para a mesma direção nas ruas, os vegetarianos e os carnívoros comem um alimento mais forte, que não permite o nojo; porque cabe a todo amante da liberdade descobrir, por um lado, que estar nas ruas quer dizer sempre e por si só estar amando a liberdade e, por outro, que se pode sentir o mesmo ao voltar para casa; porque quem nunca deu o cu, para um homem ou uma mulher, está sendo tentado pelas circunstâncias a imaginar muito bem como é; porque cada cheiro que nos remete à infância ou ao corpo da amada ou amado tem a força pungente, mágica e ligeira de uma filosofia; porque toda revolta política é também uma revolta da sensibilidade, do corpo, do milagre que não se mostra; porque podem deixar que eu, meus amigos, os loucos e os santos cuidemos do silêncio histérico destes tristes encontros públicos de shopping de Curitiba; porque o vinho é como se fosse o sangue de um corpo que não alcançamos; porque toda ascensão ao sublime nasce do estar tomado de trás para frente; porque se Deus existe tudo é permitido; porque a liberdade não está em ver ordem ou desordem, julgamento ou contra-julgamento nas palavras, e sim Canto, poesia, tome ela a forma da beleza que tomar; porque o rancor é o encontro da consciência com o infinito, é o pedido extremo por amor; porque eu estou divido entre dois ídolos: o Saci Pererê e o Matita Perê; porque engraçadinhos são os cristãos e os evangélicos que posam publicamente de santos castos e, à noite, no leito do amor e da retirada de máscaras, fazem mil milagres dos quais não suportam falar; porque algumas cantoras ainda cantam como se o canto fosse o único homem que não tiveram; porque, como diria o poeta Murilo Mendes, “os deuses jejuam de pão e tudo o mais. Menos de metáfora” ou “no corpo do homem o enigma se contempla e se autodestrói”; porque a vida pública já não serve essencialmente para esconder a vida privada; porque, sim, ainda se chora ouvindo música, o que não há muito é com o que limpar as lágrimas; porque se estás diante de uma vida, estás diante de Deus, se a morte for perdoada, e eis o milagre da coragem, a esperança da nossa civilização.

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Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



One Response to POR QUE MANIFESTAMOS?

  1. julio cesar furlan says:

    Olá Diogo, você sempre mandando uma audácia literaria pra termos a oferecer como brinquedo para os nossos sentidos. Brax irmão !!!

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