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Publicado em janeiro 14th, 2013 | por Léo T. Motta

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PSICODELIA ITINERANTE (2)

[Fotos Stefano Maccarini]

Rock rural e camisas inauguraram a programação musical do último dia do ano no Psicodália.

Já conhecia a Xispa Divina do Fest Malta, festival semelhante ao Dália em menor proporção, realizado no RS. É rock do mato, pé no chão e não podia ter caído melhor. Na sequência a Plexo Solar fez o contraponto com um repertório indie rebuscado, como que calçando sapatos. Contemporâneos do The Band, fazem um som radiante, ensolarado e de sorriso no rosto. Sorrisos, a propósito, não faltavam ao grupo (no qual me incluo) que aproveitou a trégua da chuva para armar suas câmeras analógicas com filmes, fotografar e arriscar alguma afinidade com bambolês da Yomis’ Hoops.

Um fenômeno pouco comum ocorreu neste último dia de 2012: num mesmo lugar e com poucas horas de intervalo, dois shows de trios instrumentais de alto nível vindos de Porto Alegre. A Sopro Cósmico, que tocou à noite no palco principal, perdi. Já o show da Quarto Sensorial, cuja apresentação no Palco do Sol começou perto do fim de tarde, foi um prato cheio que tive o prazer de degustar. O trio toca um tipo de jazz fusion que não se prende ao jazz e cujo fusion vem do sangue. Dub, heavy metal, samba cafeinado, funk e post-rock, entre outros, completam a míriade de sons que emanaram do palco. Aplaudidos da passagem de som ao final do show, ouviram ainda da plateia pedidos de convocação para o palco principal. Com aparente sinceridade e satisfação estampada no rosto, o baixista Bruno Vargas agradece e replica que, diante da oportunidade de estrear no festival, todo palco é principal.

Corta para o momento em que se vê gente para todos os lados, a perder de vista, trajando roupas de luz e recebendo de braços abertos a entrada oficial do primeiro ano da nova era. Todos desentocados, poucos apegados ao tradicional branco, e muitas garrafas de espumante empunhadas: era chegada a hora. Fogos modestos mas de beleza incrível pipocaram no céu enquanto todos gritavam, celebravam e jorravam espuma alcoólica nos amigos. Com muita gente se guiando por seu próprio horário, a passagem do ano acabou dissipada em vários pequenos momentos, fundidos como num mosaico de frames do Réveillon, onde o quadro maior é uma comemoração duradoura e iluminada em sintonia.

Acontece que não é fácil resolver a alta expectativa que se cria pós-virada, no auge do clássico porre, sem pelo menos um foco ou tema. Cadê a música? Logo começaram, no palco principal, os disparates e desventuras marítimas da Confraria da Costa. Com letras bem pensadas e clima quente, os piratas fizeram embarcar novamente sua tripulação nômade e enorme.

Mente com os olhos vendados

Com os dois pés amarrados

Mente até de trás pra frente

Cegamente a mente mente

O resto da madrugada deve ter sido histórico em cada canto do festival; nos palcos se apresentaram, ainda, Cadillac Dinossauros e La Montana Girls. Tudo borra enquanto a noite se esvai, com encontros surreais no Saloon e rostos pintados que sorriem no escuro, saindo de todos os lugares. Logo o amanhecer é dia, o contrário de nada é nada e mais um ano começa.

O Bruxo

Uma chuvosa manhã veio acordar a todos em suas devidas ressacas de dia primeiro, muitos praticamente flutuando em poças dentro de suas barracas. Se a sensação era de que tudo tinha mudado ou de que algum exagero havia criado esse delírio coletivo eu não saberia responder, mas não consegui conter o largo sorriso no rosto pela iminência de finalmente ver Hermeto Pascoal ao vivo.

Um longo tempo decorreu entre a celebrada chegada de Hermeto numa van e o momento em que as cortinas se abriram para o começo do show. Após bater ponto no Saloon foi na lama, bem de frente para o majestoso palco principal, que estacionei junto aos amigos para a espera. Em anúncio sincero e emocionado, Cristiano Farias compartilhou a antiga vontade da produção do festival em contar com “O Bruxo” no palco e o tempo, longo demais, em que essa vontade era apenas um sonho.

Sabendo da sede por catarse do público em festivais, Hermeto Pascoal preparou sessões de insanidade com sílabas cantaroladas que ecoaram pela fazenda

A fala já meio fraquejada do senhor albino de 76 anos, longos fios brancos de barba e cabelo, carrega o maior carisma de todo o cosmos. As primeiras palavras vêm desejar feliz ano novo e brincar que, fosse ele, não sabe se teria paciência de esperar tanto tempo. O multi-instrumentista, aclamado ao redor do mundo há muito tempo, começou o show no piano e logo partiu para o sopro. Para esse show em trio, a formação é familiar: tocaram com ele Aline Morena, sua esposa, e Fábio Pascoal, o filho. Ela exímia cantora e musicista, ele percussionista de mão cheia.

Considerado por muitos o maior músico vivo devido a obra, virtuosismo, habilidade de composição e improvisação, conhecimento musical e feeling incrível, Hermeto não quis provar nada e ainda assim mostrou que o título não é exagero. Sabendo da sede por catarse do público em festivais, preparou sessões de insanidade com sílabas cantaroladas para que o povo repetisse, ecoando a criação do palco para todos os cantos da fazenda. Sorrisos e participação a plenos pulmões só confirmavam o caminho certo que o show havia tomado.

Com direito a homenagens a Luiz Gonzaga, Tom Jobim e Oscar Niemeyer, o bom velhinho seguiu conversando com o público ao longo de toda a apresentação. Tocou Asa Branca, canção sertaneja e clássico absoluto, de forma quase celestial. Em Garrote admitiu sua paixão por entortar composições alheias e fez o que parecia impossível com uma sanfona, trabalhando tempos pouco usuais e dobrando ritmos. Hermeto ainda tocou escaleta e berrante, pelo menos, enquanto Fábio chegou a solar em patos de borracha e Aline executou uma música inteira utilizando apenas a voz e a água de uma piscina inflável cheia.

Abra a mente e deixe entrar a inspiração, que o que é bom vem sempre

Seguiram ainda (conforme agendado ou não) apresentações da instrumental Samuríndios, do ícone Plá e da intrigante Epopeia, direto do velho oeste catarinense e no fôlego de um ótimo 2012, além da trinca de guitarras da curitibana Pão de Hambúrguer. Mas isso tudo em outra dimensão onde meu corpo ficou, com meus ouvidos, para ouvir o resto dos shows e amanhecer uma última vez naquele paraíso lamacento. Enquanto o Palco do Sol ouvia White Rabbit, do Jefferson Airplane, as araucárias à beira da estrada passavam pelas janelas de nosso carro que ia sentido sul, rumo à vida cotidiana, litoral e laboral.

Em folha de papel na praça de alimentação, uma placa improvisada em uma folha de papel tinha dizeres breves e diretos em caixa alta: “Não pire errado”

Antes de ir embora liguei o celular pra fotografar uma placa improvisada em folha de papel na praça de alimentação, cujos dizeres preto-no-branco em caixa alta eram breves e diretos: “Não pire errado” – a ideia era escrever sobre, mas a menção é suficiente. Arbitrário e subjetivo, mas mais que suficiente para qualquer bom entendedor.

Independente do momento que se enfrenta, do tipo de música que se ouve, dos louros e mágoas que a vida entrega, a dica de ouro é que se tire o melhor de tudo. Amar a vida, amar o mundo. Se pudesse voltar no tempo, mudaria apenas duas coisas: aumentaria o volume dos sintetizadores de Túlio Mourão no dia 30 e faria mais votos por um 2013 em que não pirem errado.

Que passemos a vestir a consciência psicodálica não só durante os dias do festival e não odiemos cada segunda-feira no ano até que a próxima oportunidade chegue. Pela expansão dos valores humanos e olhos abertos para a aceitação do próximo, de si mesmo e de cada momento. Que a música-tema seja Eu Só Penso Em Te Ajudar e não Também Vou Reclamar. Começamos de novo, ou pelo menos assim dizemos, e qual é o jogo a se jogar em 2013?

  • Clique aqui para ver fotos do público, e aqui, dos shows.

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



4 Responses to PSICODELIA ITINERANTE (2)

  1. Leonardo Souza says:

    Léo, que bom que eu deixei pra ler esse texto só agora, voltaram todas as imagens do Psicodália! Tu escreve e descreve muito bem. Foi meu primeiro Psicodália e com certeza não será o último, só tenho a te agradecer por ter vendido tão bem a idéia. Abraço!

  2. Silvana says:

    Belo texto, Léo. Retornei à fazenda durante a leitura. Parabéns.

  3. Excelente Léo, ótimo relato.

    Tive o prazer de também estar prestigiando o festival, fui pela primeira vez no carnaval passado e não pensei duas vezes quando divulgaram a edição de Reveillon.. e novamente superou as expectativas, não lembro de ter começado um ano novo tão bem antes na minha vida.

  4. rafael says:

    texto muito bom, conseguiu captar uma fagulha que seja do que foi o festival, a harmonia entre as pessoas e o amor que transbordava de todos ali presentes.
    parabéns e que os proximos psicodalia sejam mais psicogalaticos ;D

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