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Publicado em janeiro 14th, 2013 | por Léo T. Motta

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PSICODELIA ITINERANTE

[Fotos Stefano Maccarini]

Novas culturas requerem novos caminhos. Gostaria de começar dizendo que essa cobertura já nasce com encargo emocional e nela não há muito apoio na razão, salvo quando estiver contando fatos.

Antecipo desculpas, também, pelos shows que perdi e serão mencionados na medida do possível. Pouco importa se soar parcial demais. A vivência que se tem ao longo dos dias de festival transcende boa parte da ética jornalística ou necessidade de fontes comprovadas. É impossível cumprir com a pretensão de traduzir integralmente em palavras o que é fazer parte d’um evento como o Psicodália, mas somos credenciados para tentar. É muito mais uma questão da experiência, do convívio, de transmitir e absorver mensagens, despertar sentidos e se permitir sentir. É como gritar e ser ouvido por mais de três mil pessoas, que prontamente respondem na mesma frequência.

O Psicodália é um festival itinerante que teve sua primeira edição na Lapa, no Paraná, em 2004. Desde então, ocorre ano após ano, tradicionalmente no Carnaval e em Santa Catarina. Desde 2009 realizado na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, pela segunda vez teve edição no Réveillon. A melhor das festas, dura dias e só termina ano que vem. Além de muito rock, música autoral psicodélica e performática, camping e belas paisagens, estão entre os ideais do movimento consciência ecológica, vivência em comunidade, aprendizado coletivo e respeito mútuo.

É meio inevitável a comparação com festivais como Woodstock, Ilha de Wight, Festival de Águas Claras e Monterey Pop Festival. Difícil de evitar, tal qual o já pejorativo termo hippie e a tentação de devanear por várias linhas procurando uma definição mais sensorial, numa narrativa surrealista. Para todos os efeitos, esta foi a 16ª edição desse inspirador encontro psicodélico.

Aos fãs de verbetes, pode-se tentar conceituar o que acontece de forma quase científica: “O Psicodália é um evento onde cerca de 4.000 pessoas de todos os cantos do sul do mundo se encontram para, por alguns dias, conviver de maneira harmoniosa em coletividade inevitável; berço de oficinas, tirolesa, debates, coletivas de imprensa, encontros espontâneos, acampamentos, shows de alto nível, bambolês e malabares, cinema, cozinha comunitária, centro de tratamento de lixo, teatro, palcos, formações musicais mutantes, bares, bazares, restaurantes, artes misturadas e, invariavelmente, muito amor. Banho nu às 4h20 na lagoa e groove no Saloon toda madrugada.”

Música paralela

Não só de palcos e sistemas de som potentes vive a música no Psicodália. A frequência 97,8 FM é destinada à Rádio Kombi, central musical que antigamente funcionava, de fato, dentro de uma kombi. Além de clássicos brasileiros das décadas 1960, 70 e 80, a programação conta com músicas das bandas que tocam no festival. Há ainda o ímpeto sonoro dos psicodálicos, que faz brotar hora e outra rodas de sons diversos. Seja um violão torto ou uma linda cítara, com ou sem acompanhamento percussivo, vozes coordenadas ou conflitantes, a música nunca para de fluir.

Violoncelos, cantigas, mantras, flautas, Tim Maia, Bob Marley, jam sessions infinitas e liberdade criativa. Exemplo vivo é o ajuntamento de praxe no acampamento Mutantes, onde há sempre boa parte de uma bateria e alguns instrumentos plugados, sem palco ou tempo limite. Quase que incessantemente há fluxo de gente e rock homenagem no ar. Soaram dali, nesta edição, enérgicos tributos a Hendrix, Doors, Grand Funk Railroad, Led Zeppelin e uma infinidade de outros.

Lendas urbanas, porém rurais

Como não poderia deixar de ser, com o tempo lendas urbanas espalharam-se entre os moradores temporários do festival. Temporários porque a moradia é sazonal, a vivência se leva junto na saída. Não é raro ouvir gritos chamando um tal Wagner pela fazenda, seja durante os intervalos de shows ou durante as músicas, no fervo do Saloon, no café da manhã, no acampamento, no meio do mato e no caminho para qualquer lugar. Sobre Wagner também muito se ouve. Uma história conta que vendia tíquetes milagrosos como ensinou o fã de Grateful Dead, outra versão diz que se perdeu dos amigos, que pediam às pessoas e acampamentos que chamassem por ele.

São muitos os relatos de cookies que aguçam os sentidos, bandas que conjuram ilusões no palco, absintos artesanais de teor alcóolico superior a 99%, oficinas de meditação que mudaram vidas

Outra incógnita que começou a ser levantada na edição de 2009/10 foi sobre a propriedade da Fazenda Evaristo. Não é difícil descobrir, perguntando aos que nela habitam durante aqueles dias, que o proprietário das terras é Sérgio Reis, ator e ícone sertanejo que integrou a Jovem Guarda. A história é recorrente e exalta o ar de conspiração favorável que cerca o festival, mas até onde foi possível checar não passa de um mito. A fazenda, como esperado, pertence à família de algum empresário da cidade.

São muitos os relatos de cookies que aguçam os sentidos, bandas que conjuram ilusões no palco, absintos artesanais de teor alcóolico superior a 99%, oficinas de meditação que mudaram vidas, bloco carnavalesco Cachaçadália, homens prateados e palhaços. Conversando pela vizinhança, logo percebe-se que o imaginário coletivo de todo o Movimento Psicodália é vasto e já viu muita coisa. Falando em lendas não se pode esquecer do Plá, artista das ruas de Curitiba há décadas. Seu visual é algo entre Raul Seixas e Karl Marx; seus versos são simples, sinceros e até meio óbvios, mas ele já lançou mais de 30 ábuns e vive plenamente sua filosofia de vida alternativa. E quem pode dizer que está errado?

Saloon: Dançando boogie woogie

O espaço interno do Saloon costuma ser uma das grandes atrações do festival. É o ambiente dionisíaco que abriga bar, Palco dos Guerreiros e recebe de braços abertos todo ser que precisa de mais festa quando encerram as atividades no palco principal. Durante o dia, serve ainda para exibições de filmes e oficinas, além de ter sido locação para as gravações do novo clipe da Confraria da Costa. A vista da porta de entrada do Saloon mostra bem o que se passa lá dentro: gente pintada, fumaça, lustres antigos, luzes baixas, calor humano, dança, músicas costuradas por arranjos nômades, fantasias, personagens. Sempre caótico, confuso e estranhamente convidativo.

No Saloon vi gente nua, pinturas faciais, palhaços andando de cócoras, cachorros, instrumentos diversos e ouvi muita música tocada para aquecer. Grata surpresa para os incautos que só queriam fugir da chuva, era o lugar sediava festas movidas a groove, o som nosso de cada noite. Quanto mais tempo se passa dentro, menos se quer sair. O clima é sedutor em vários aspectos, e o chope era muitas vezes servido trincando, para o deleite de todos. Muitos acabaram nem sabendo, por motivos óbvios, mas no Saloon eram servidas porções de batata frita em sacos como de pipoca.

XVI: Chuva e delírio em Rio Negrinho

Já na chegada, assim como no caminho, muita chuva. Convicto de não armar acampamento naquelas condições e rumando para o palco, ouço um furacão sonoro. Quem fritava válvulas no palco era a gaúcha Rinoceronte, de Santa Maria, destilando uma incrível dose de rock brutal e poético, que bebe na fonte setentista sem se acorrentar ao passado e faz jus ao “power” em power trio. Grande presença no festival, com estreia ainda no carnaval de 2012, parece encorpar, amadurecer e impressionar mais a cada aparição nos palcos. Abriram o show para ninguém menos que os Blues Etílicos de Greg Wilson, maior banda de blues do país, da qual receberam elogios no microfone. Tocaram clássicos como Cerveja, Terceiro Whisky, Walking Blues e Misty Mountain, entre vários outros, chegando a revisitar Raul em Canceriano Sem Lar. Do começo ao bis, Vou Pegá Ma Beibe, deixaram impressa sua marca de headliners na escalação.

Troca de cena dos etílicos para os lisérgicos, ao passo que o show marcado para o Saloon é transferido para o palco principal. São os aclamados Skrotes, direto da Ilha-capital, e a promessa é de uma linda e primorosa fritada madrugada adentro. Sabendo e  partilhando da vontade da banda em tocar no festival, foi definitivamente um marco ver isso se concretizar. Digo sem ressalvas que a escalação foi merecidíssima, a julgar pelos aplausos e os – atendidos – pedidos de bis. Por sorte e bela homenagem, a comunidade psicodálica teve a chance de ouvir a primeira composição do trio, Arco da Velha, e sua boa dosagem de subversão. Ainda depois deles, dentro do Saloon, no Palco dos Guerreiros, o blues-rock do bandão Electric Trip embalou o último intervalo entre a noite e o after.

Ao Seu e aos demais

No segundo dia as atividades no Palco do Sol começaram cedo, às 14h, com a banda curitibana Cabeçote, que com modéstia descreve seu som como rock’n’roll instrumental orgânico e sincero. A capital paranaense, vale a menção, sempre foi muito bem representada no plantel musical do Psicodália. Na mesma tarde houve ainda outra banda da cidade, Velho Bandido, cujo som remete a algo na linha do nome, com agito e riffs andarilhos. A Dingo Bells, de Porto Alegre, cruza indie tupiniquim com rock gaúcho, tropicalismos e tempero garageiro; até uma passeada em Caetano deram, fazendo um show quente e hipnótico.

Os trabalhos da noite abriram às 20h com naipes de sopro e instrumentos rústicos, aquecendo o público para a noite estrondosa que viria. O som foi cortesia d’Os Transtornados do Ritmo Antigo. Assim como outras bandas no festival – Bandinha Di Da Dó, Confraria da Costa, Terra Celta… – algo semelhante a polka eventualmente é convocado para garantir ritmo festivo e dança aos que de dançar gostam. E hey daqui, ahoy de lá, os sopros seguiam a aquecer e esticar o público para a grande noite. Vale grifar a melhor música do show, Inadequado. Cito: “Se não gosto eu sei: não foi feito pra mim. Não adianta reclamar…

Quem a seguir veio fazer as honras subiu ao palco já de honras feitas. Klaus Eira é figura carimbada do festival, tendo tocado em 9 das 16 edições. Desde a última, no Carnaval, o músico segue carreira solo. Acompanhado pelos elétricos Cadillac Dinossauros, com um pé no funk e outro no hard rock, além do tecladista Newmar Brostulim, executam composições de Klaus, que já foi membro de bandas como RoberSouTheValsa, Castanhedas e O Conto. Num show forte e afiado seguiram compondo e decompondo, preparando o jardim para a lenda da noite, Alceu Valença.

Reavivando a chama do baião psicodélico direto dos anos 1970 com a promessa de execução da íntegra do disco Vivo!, de 1976, Alceu era certamente uma das atrações mais esperadas do festival. Esbanjando vitalidade e carisma, conduziu o show tocando pérolas muito diferentes do que esperariam os menos avisados. De Agalopado a Morena Tropicana, alternou entre vocais e violão frame, vestindo sempre seus óculos escuros Ray Ban aviador.  Em transe, foram muitos os que dançaram com todas as energias, a maioria meio à lama, alguns em tablados e nas ruas laterais, outros tantos pelados – nus de preconceito.

O título de banda mais excêntrica do festival pode acabar em empate entre várias, mas a menção honrosa sempre será para a Terra Celta. Fanfarrões, eruditos, alguns médicos e todos boêmios. Trajados como celtas e com adornos steampunk, tocando uma enorme gama de instrumentos pouco usuais, fazem a naite mais alegre e agitada. Já consideravelmente tarde da noite, o Saloon recebeu o show da freneticamente intensa Goya, prog instrumental de quilate, e ainda da gaúcha Rocartê, que toca um som bonito, meio sujo e sessentista; a essa hora, já é manhã do lado de fora.

Brevidades no dia D

É novamente cedo quando, direto de Pernambuco, o trio Quarto Astral sobe ao Palco do Sol. Com muitos riffs e levadas puxando para o estilo do mestre Hendrix, encarnam Travação e Árvore para sintetizar a vibe da tarde. A banda Black Cherry aproveita o bonde andando pra jogar tinta na lataria, tocando um set de jazz-rock com tiques de reggae, dub e música brasileira. A grama molhada jamais foi tão atraente. Multi-instrumentista de alma blueseira e bagagem folclórica, Davi Henn tomou conta do entardecer mandando bem, embalado por competente banda de apoio.

Leandro Lopes, surgido das bandas Mesa Girante e Acesso Verde, chegou a tocar ainda com O Sebbo no festival, mas pela segunda vez foi com a Gaita Mágica que se apresentou, convocando os transeuntes a encostar na tenda do palco principal para assistir ao espetáculo prometido para a noite. Parte desse público acabou saindo na sequência, durante o show da Banda Gentileza, sem entender direito o que se passava. Apresentando uma mistura genuína de música cigana e caipira, rock, ska e funk carioca, era natural que o êxodo viesse, ainda que entre mentes tão abertas. Nem todos conseguiram entrar no clima de vergonha compartilhada e descontração da coreografia rebolativa puxada pela banda em algum ponto do show. Curiosa porém acertada convocação, especialmente pela ausência do contraventor de costume, Rafael Castro, no line-up. Calcule o estrago por aí…

Deixe entrar um pouco d’água no quintal

Acho que a primeira lembrança que tenho de um Psicodália em Rio Negrinho, já dentro da Fazenda Evaristo, é uma faixa esticada, pintada a mão, com os maiúsculos dizeres “Tudo Foi Feito Pelo Sol”. Isso resume bem o cabimento do que aconteceu no festival na noite do dia 30 de dezembro.

Um mero “boa noite, Psicodália!” quase que sussurrado por Sérgio Dias foi o suficiente para colocar em frenesi a multidão que se reunia. Era hora de assistir ao medalhão: um show de certo modo inédito, cuja setlist era nada menos que a íntegra do álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol, com a formação original de 1974, tocado pela primeira vez em mais de 35 anos. No palco, além do quarteto fantástico Dias, Túlio Mourão, Rui Motta e Antônio Pedro Fortuna, dois backing vocals suprem a aparente (e natural) falta de voz para tons mais altos, além de compor coros e solfejos contidos no álbum.

Um mero “boa noite, Psicodália!” quase sussurrado por Sérgio Dias colocou em frenesi a multidão que se reunia;  a setlist era nada menos que a íntegra do álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol

Ao abrir com a bateria explosiva de Deixe Entrar Um Pouco d’Água no Quintal o baterista Rui Motta podia até não saber, mas desencadeava um milhão de emoções indizíveis nas milhares de pessoas que ali estavam. Muitos, assim como eu, gritaram e começaram a acreditar que, sim, aquilo estava realmente acontecendo. A magia seguiu em Pitágoras, única faixa instrumental do disco, que entre suas várias camadas de psicodelia e efeitos revela uma beleza matematicamente engenhosa e cheia de feeling. Ironicamente, num dos únicos momentos de chuva do dia, foi em Desanuviar que ela caiu. Foi a hora e a vez de entrar em transe, limpar os pensamentos, chorar ou qualquer outra reação sincera que se possa ter. Vai embora, nuvem…

O ápice de consistência do show foi na trinca Eu Só Penso Em Te Ajudar, Cidadão da Terra e O Contrário de Nada é Nada. Afiados como muitos nem esperavam, arrancaram do público gritos ensandecidos, danças no solo cremoso e refrões cantados a plenos pulmões. O contraste a seguir foi celestial, quando apresentaram a faixa-título, Tudo Foi Feito Pelo Sol. Momento propício para apreciação de texturas, sonoridades, cores, formas, tesseracts e raios de luz dourada emanando do palco e das pessoas.

Após a linda e quase impecável apresentação das sete faixas do álbum-tema, os Mutantes apresentaram ainda Anjos do Sul, Cavaleiros Negros, Balada do Amigo e Tudo Bem, tocadas originalmente com essa mesma formação, em tom mais intimista mas mantendo altos o astral e o grau de sorrisos. Naturalmente que, antes de deixar o palco, Sérgio Dias e trupe puderam ouvir o povo clamando por mais. A intensidade foi tamanha que todos logo retomaram seus lugares para reprisar as duas canções mais roqueiras do álbum, dessa vez com a participação especial do público nos vocais mais potentes que o festival já testemunhou. O som segue soando, e por muito tempo ainda haverá de ecoar.

E a minha vida é toda verdade

E eu não tenho mais idade

E o meu passado é o meu futuro

E meu tempo é o infinito

Clown music

Se a emoção veio com o anúncio de que tudo foi feito pelo sol, é definitivamente hora da diversão quando a Bandinha Di Da Dó apresenta Tudo Foi Feito Pelo Clown. O quarteto de palhaços é afiadíssimo e tem o público na palma da mão, sem perder de vista o discurso artístico e da mais sábia palhaçada, que é não se levar a sério. A presença de um sintetizador faz chamamentos para uma pista de dança farofenta, mas é tudo usado a favor deles ali mesmo, onde todo elemento vem pra somar. Arrisco dizer que, num geral, a Bandinha foi um das bandas de maior aceitação no festival. Eu absolutamente não vi Pallets depois, no Saloon, mas ouvi recomendações e a passagem de som durante tarde deu indícios de que seria interessante.

  • Clique aqui para ver fotos do público, e aqui, dos shows.

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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



2 Responses to PSICODELIA ITINERANTE

  1. Lucas says:

    As atrações principais são sempre excelentes (Mutantes, Tom Zé, O Terço, Alceu Valença, etc.) mas pra mim falta muito rock n roll clássico. Sobra espaço para bandas regionais com músicas próprias e falta espaço para bandas cover e tributos às lendas do rock. Isso não é só minha opinião, ouvi dezenas de pessoas clamando por Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, The Doors, Beatles, The Who, AC/DC, etc.
    E para terminar: Essa banda Confraria da Costa que fez o show da virada em pleno Reveillon é MUITO chata!!!!!!! De rock não tem NADA!!!
    Mas eu adorei o evento e os bons momentos já foram citados acima.
    Saudações

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