Pirão amy_no_stage

Publicado em julho 26th, 2011 | por Revista Naipe

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“WHAT REALLY HAPPENED TO AMY”

[Por Clarissa Antunes, 26/07/11]

Ainda processando aquela rotulada como a morte mais anunciada de todos os tempos, compartilhei com minha sócia, a também jornalista Rachel Sardinha, um dos únicos momentos de humor negro que tive desde o sábado:

– Quando será que o pai da Amy nos ligará? – teclei pra Rach, que acompanhou comigo as notícias sobre a morte da cantora.

Rachel coordenou no Brasil a comunicação do lançamento de What really happened to Michael Jackson, livro do produtor americano Leonard Rowe. Para o trabalho, falamos pelo Skype com Joe Jackson, o polêmico pai do cantor, em Los Angeles. “Queremos que o povo brasileiro saiba o que aconteceu com meu filho”, disparava Joe. “Vocês precisam saber o que aconteceu com o meu Michael”. Ok Joe, ok…

A “diferença”, agora, é que todos sabem o que aconteceu a Amy (no caso de Michael também, vá…): acompanhamos, em plena era de reality shows, capítulo a capítulo, uma historinha da vida real.

Ainda sem a causa fatal e oficial divulgada não consigo, infelizmente, desviar de especulações e abobrinhas proclamadas. Já li e ouvi pérolas do tipo: “Morreu porque quis. Bem feito! Quem manda usar drogas? Foi tarde, um péssimo exemplo para a juventude”.

Ainda que lesse isso de padres (não, deles também não) ou irmãs de caridade, não concordaria. Nem vou me prender ao fato de ter visto usuário (anônimo e famoso) declamando de alto de seus banquinhos falsas lições de moral, mas sim ao fato de que ninguém da espécie humana está apto a julgar ninguém. Ou vocês acham que Amy sonhava com uma morte como a que teve: sozinha, com um corpo esfacelado, com marcas evidentes de deterioração e decadência?

Ah, sim: quem não quer aparecer com feridas no rosto, indo presa, com a boca sem dentes, com os ossos expostos revelando um corpo esquálido (ainda que em tempos que as esqueléticas são cultuadas na passarela)?

Pegar no colo

Fazia tempo que Amy não tinha mais condição alguma de querer ou não, de saber o que se passava a sua volta ou não, de largar o vício. Já não era uma dependência psicológica (sim, óbvio), era química. E como – sim, também li coisas muito coerentes nos últimos dias, graças! – bem disse um de carne e osso, como eu: “Quem já teve alcoólatra e drogado na família sabe que a coisa é mais complicada”. O “querer” já não é mais o fator dominante.

“Ela não vai longe”, pensei, ao vê-la no palco em Janeiro deste ano. Eu e metade do mundo sabíamos disso. Minha segunda reação (a primeira, como assessora de imprensa do local que recebeu o show em Florianópolis, portanto com responsabilidade direta sobre o batalhão de jornalistas no evento, foi “Ufa, ela veio!”) foi “quero pegar no colo”, pode?

O vozeirão nem combinava. Vinha de uma menina tímida, magrela e perdida. “Ela precisa de ajuda”, também pensei.

O vozeirão nem combinava. Vinha de uma menina tímida, magrela e perdida. “Ela precisa de ajuda”, também pensei.

Ao longo destes anos de suicídio compartilhado, quantos de fato fizeram alguma coisa? Quantos tentaram impedi-la de se matar? “Não adiantava mais”, dirão. Provável. Mas um dia adiantou.

E ainda que o fim fosse realmente iminente, ficamos todos assistindo e repetindo: “Ela vai morrer”. Pois é. Vai. Morreu. Pedia desesperadamente por ajuda, mas não foi ajudada. Talvez não quisesse, ok. Mas ainda assim é direito de cada um, certo? Obrigada.

Existimos

De repente vejo o mundo dividido entre o bem e o mal: os que usam drogas e estúpidos; os do bem, sóbrios, inteligentes e bacaninhas. Para estes super-heróis da primeira turma, os puros e corretos, lembro: existem pessoas fracas, com traumas, dilemas e conflitos internos. Ainda que “gênios”. Não conseguem reagir, não conseguem enfrentar os medos, angústias, frustrações e uma vez nas drogas, é tarde demais. Sabe assim? De carne e osso? Existimos!

E se eu, que não sou nenhuma Ms. Winehouse, me sinto muitas vezes completamente sozinha, lost, mesmo tendo muitos ao redor pra me levantar quando eu cair, sei que não devo aceitar bala de estranho porque talvez não volte pra casa, quiçá ela, um talento como poucos, que mesmo com platéias eufóricas e lotadas a aplaudi-la, não achou uma só alma para acalmar as “vozes demoníacas” que a perturbavam e encontrou nas tatuagens e nas drogas suas fiéis (embora traiçoeiras) escudeiras?

E que quando eu morra, vá pra este mesmo lugar de “mortais”, de pessoas falíveis. Que os super-heróis continuem nas ficções ou por aí dissipando suas verdades hipócritas. Mas longe de mim.

Em tempo: péssimo exemplo pra juventude, pra mim, é outra coisa. Nosso país tá cheio deles.

[Clarissa Antunes é jornalista e sócia-diretora da Em Voga Comunicação. Este ano, assessorou em Florianópolis o Summer Soul Festival, que teve Amy Winehouse como atração principal; no ano passado, assessorou o lançamento nacional do livro What really happened to Michael Jackson.]

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5 Responses to “WHAT REALLY HAPPENED TO AMY”

  1. Gabriela Schmitt says:

    Muito bom Cla! Só tu pra se expressar tão bem nesse assunto que me deixa sem palavras.. Apenas disse e repito: “Coitada!”

  2. Celia Lacerda says:

    Noooossa que texto!!! Simplesmente, adorei!!!

  3. Gustavo Brazzalle says:

    Desculpa.. “chapa branca” pode ter soado meio político.. era pra ser caga-regra mesmo (expressão roubada de um grande amigo)

  4. Gustavo Brazzalle says:

    Outra bandeira hasteada pela turminha da chapa branca: “A morte de uma viciada ofuscada a de 92 inocentes na Noruega, mundo injusto”.
    Ridículo. Uma pessoa perde automaticamente o direito de se sentir mal com uma morte anunciada (realmente, um suicídio compartilhado) de uma pessoa com tanto valor nos mais variados aspectos, por conta da forma que a mídia se propõe a apresentar isso em paralelo a outras notícias que não tem nenhuma ligação.
    Me sinto muuuito mal com uma tragédia absurda sem precedentes. É tão óbvio que não precisaria ser falado. Mas ser taxado de alienado ou o que valha, por isso, acho malzaço.

  5. Thiago Moreno says:

    Finalmente uma voz sensata sobre o assunto.
    Quando eu achava que não ia mais aguentar ouvir falar em Amy Winehouse, me surge esse texto.
    Parabéns!

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