Pirão raul2

Publicado em outubro 4th, 2013 | por Diogo Araujo da Silva

0

RAUL E ELIS

Unindo literatura e mediunidade, o projeto Doce Niilismo entrevista duas figuras clássicas da música brasileira: Raul Seixas e Elis Regina.
raul1

Doce Niilismo: Raul, o que é preciso para ser um maluco beleza?

Raul Seixas: Para ser um maluco beleza é necessário coragem e saber dormir bem.

E o que é coragem pra você?

É um delírio multiforme. Equilibrado na constante do amor.

Mudando um pouco de assunto, andaram dizendo por aí que o seu maior verso é “Toca Raul”. O que você acha?

Pois você veja que era justamente isso que eu estava falando o tempo todo!

Que é o seu maior verso?

Não, “toca Raul!”

Então você se orgulha de estar de algum modo presente em praticamente todos os shows ainda hoje?

Eu acho inclusive que eu sou o único artista que o Brasil entendeu de verdade. Nem o Dorival Caymmi chegou a uma síntese tão grande da simplicidade.

Mas as letras do Dorival são mais curtas…

Não são, não. Caymmi é erudito. Minhas letras são mais curtas porque não dizem nada. Ou seja, dizem tudo ao mesmo tempo. E vão embora.

Mas não acha desrespeitoso gritarem “toca Raul” durante concertos de música clássica?

Existe algo mais clássico?

Você acha que falta guitarra na MPB?

Não, falta é violão mesmo. A guitarra é toda minha.

Usando tantas metáforas você não sente que pode se tornar obscuro para certas pessoas?

Você não deveria estar aqui, deveria estar fazendo amor.

Certo! Raul, qual o futuro do Brasil?

Tocar Raul.

E da Hungria?

Tokhar Haool.

Mas, e o engajamento político?

Está nisso, naquilo, antes, durante e depois. Que seja eterno enquanto dure, desdure e ature.

E a fome em nosso país, Rauzito?

A fome é pequena considerando a vontade de comer.

Alguma última mensagem para seus fãs?

Não sejamos tão repetitivos. Toquem Raul!

 

elisDoce Niilismo: Elis, em poucas palavras, por que você canta?

Elis Regina: Eu canto pra provar que em todas as discussões de boteco eu sempre tinha razão.

Como você concilia a sua atração pela boemia com o seu trabalho?

Não concilio… Deixo que sintam ciúmes.

Vamos falar um pouco sobre a sua história, seu passado… Qual a parte de sua infância que lhe vem na memória com mais carinho?

Esta de agora.

E o seu primeiro amor, aconteceu com quantos anos?

Na verdade devia ter alguns meses, porque acho que ninguém pode passar um ano sem amor, entende?

E como foi sua aproximação à música?

Lenta e dolorida.

Elis, quando você fecha os olhos, enquanto canta, o que você de fato está vendo?

Que sou capaz de umas crueldades…

 E então o que você faz?

Abro os olhos e vejo que alguma coisa surtiu efeito.

Por que decidiste cortar o cabelo mais uma vez?

Pra mostrar que eu sou boa de cuca, bicho.

O que exatamente você sentiu no intenso dueto com Hermeto Pascoal no festival de Montreux?

Que é possível tremer diante de um homem. É possível, mas não faz o meu feitio…

Desculpa a indiscrição, mas, sinceramente, de todos qual o seu compositor preferido?

Gilberto Gil na música, Chico Buarque na letra, João Bosco na execução, Caetano no rebolado e Milton no coração.

Elis, você se cuida como mulher?

Só enquanto o fígado permite.

 E o que ele faz pra não permitir?

Ele ameaça aposentadoria assim que eu começo depilar as sobrancelhas.

E então?

Então eu tenho duas mãos, uma segura a pinça, a outra o uísque.

Como você vê a situação da mulher hoje em relação ao machismo e às lutas políticas?

Convido todo machista pra ser bem tratado lá em casa. Devo ser imprestável para a coisa porque até hoje não apareceu nenhum.

Você acredita em Deus?

Vá perguntar pra ele!

Pra terminar, você se imagina abandonando os palcos?

Não, mas a vida já não dá pra dizer não é não?

Por que?

Porque viver pra sempre é como uma escolha… E uma hora a gente tem que enfrentar a questão de frente.

Tags: , , ,


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑