Pirão O

Publicado em março 9th, 2012 | por Thiago Momm

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RETRATOS EM FALTA

Com nova edição, Um dia, de David Nicholls, prolongou a estadia nas livrarias. Mais pop, a nova capa traz uma foto de Anne Hathaway com Jim Sturgess e o lembrete de que o livro originou filme com eles.

Esse apelo, que bom, faz com que mais gente leia um romance que traduz – com ironia, carisma, realismo – a vida do que podemos dizer serem um playboy e uma indie entre o final da década de 80 e a de 00. Se os personagens são ingleses, em tempos globais sobram paralelos com a nossa realidade.

Também vende bonito (mais de um milhão de exemplares pelo mundo e correndo) o romance Liberdade, do americano Jonathan Franzen. Mais denso, extenso e multitemático que Um dia, o livro é um grande quadro da vida norte-americana nas décadas recentes. Quatro personagens maiores ancoram vários outros, colocando em pauta amor, casamento, inquietudes, políticas ambientais, relações familiares, arte, elitismo, judeus, juventude, arrivismo, ideais, meia-idade, embates entre gerações.

Se Um dia e Liberdade pecam por alguma coisa (quem pretende lê-los, pule este parágrafo e o final do texto) é pela inserção de duas mortes súbitas nas histórias, uma em cada livro. Não pude evitar a decepção. Não que eu seja um leitor de expectativas tolas, desses que acompanham enredos com a boca. Explico.

Mais que ótimos romances, Um dia e Liberdade são o tipo de resposta que a literatura deve dar às (justificadas) críticas de que anda aborrecedora, alheia, autocentrada, um fetiche de misantropos presunçosos. “Hoje são os diretores e produtores cinematográficos, e não os romancistas, que se empolgam com o lúrido carnaval da vida americana, no aqui e agora, em todas as suas variedades”, escreveu o jornalista norte-americano Tom Wolfe no ensaio Meus três patetas, incluído no seu excelente livro Ficar ou não ficar. Wolfe poderia ter acrescentado as séries americanas. E mencionado outros países.

Hoje são os diretores e produtores cinematográficos, e não os romancistas, que se empolgam com o lúrido carnaval da vida americana, critica Tom Wolfe. O mesmo vale para outros países

Falta realismo à literatura. “Para o realista do pós-guerra, a única experiência válida era a sua própria. Depois dos anos 1960 veio a era dos jovens escritores universitários versados em ismos literários, todos os quais eram variantes do esteticismo francês, produtos da noção de que a única arte pura é a arte que não trata da vida, e sim da própria arte. O absurdismo, o fabulismo, o minimalismo, o realismo mágico – todos compartilhavam a mesma atitude. De uma maneira ou de outra, o romancista piscava para o leitor, como quem diz: ‘Você e eu sabemos que isto não é real. É algo mais sublime: o jogo da arte’”, ironiza Wolfe.

No seu livro Cultura geral, o alemão Dietrich Schwanitz diz: “Com a vanguarda do século 20, a literatura volta a ser “irrealista” (…). Passam a prevalecer as formas da sátira na figura do grotesco, do deformado, do excesso, do choque, da desintegração e do feio”. Desde então “nada há que a literatura moderna tema mais do que ser bela”, e é por isso que pode ser tão “cansativa e, às vezes, deprimente”.

Arrisco acrescentar que a falta de realismo da literatura não significa, como se pode pensar, a falta de romances negativos. Pelo contrário, há um excesso deles. A realidade que muitos escritores ignoram é a dos benefícios inegáveis da prosperidade, dos bons estados de espírito, da cara-de-pau de também ser mais ou menos feliz em meio ao caos. Um dia e Liberdade são retratos equilibrados da vida que leva a maioria das pessoas. Embora as histórias sejam críticas, não têm aquela contrariedade permanente com os mais diversos aspectos da existência, típica de tantos escritores. Só que as mortes súbitas, mesmo sem comprometer a óbvia qualidade dos dois romances, destoam. Uma vontade de tragédia que Nicholls e Franzen parecem ter incluído ali apenas por mau hábito profissional.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to RETRATOS EM FALTA

  1. Bruno says:

    Li os dois livros.
    “Um dia” é muito fácil de se apaixonar, e me vi chorando nas últimas páginas.
    Já a minha experiência com “Liberdade” foi um pouco diferente. Quando terminei de ler achei que não tinha gostado muito, mas acabei passando vários dias com os personagens ainda na minha cabeça. Durante a leitura ficamos tão acostumados em acompanhar o dia a dia de cada um deles, que quando terminou me deparei sentindo falta e querendo saber o destino de cada um. E isso que faz um livro ser inesquecível.

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