Pirão

Publicado em setembro 9th, 2014 | por Diogo Araujo da Silva

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SOBRE O GRANDE SARCASMO

Exercício para um novo apreciador artístico: não vituperar contra nenhuma arte. Isto mesmo: não falar mal de artistas.

Escolher o seu enigma. Tirar dele força. Os “maus artistas”, a “arte ruim” serão enigmas que não atraem a sua atenção. Ao invés de falar sobre o que não é, você falará sobre o que é. É muito mais difícil.

Muito fácil tornar a arte uma questão de gosto e mais nada. Muito fácil e falso. Sempre escapará a este apreciador fortes enigmas, enigmas que lhe darão rasteiras. Veremos suas caras de tacho quando apresentarmos a intenção forte de um trabalho que ironizaram, uma cara semelhante a de alguém que acabou de comer sushi e disse: “Ainda não está pronto, está cru.” Isso sendo apenas uma metáfora.

Alguns apreciadores de arte falam de artistas como se saíssem na rua pensando: “Olha um japa magrelo.” Do outro lado da calçada, você indo em direção a ele com intenções de praticar o mais triunfante bullying, Bruce Lee. A arte é este Bruce Lee. Cuidado com as aparências. João Gilberto te picará em pedaços. Jeff Buckley comerá teus miolos.

“O intérprete/crítico decidiu respeitar ou desrespeitar?” É uma pergunta muito mais fundamental do que “Quais são as sensações privilegiadas, causadas por esta obra?” Podemos rir da 9ª Sinfonia, não ver nela se não humor. Nossa época é meta-discursiva e, portanto, meta-interpretativa. O crítico cruel escolheu ser cruel. Sobre o que você quer aprender? Qual seu exercício na arte?

A arte é este Bruce Lee. Cuidado com as aparências. João Gilberto te picará em pedaços. Jeff Buckley comerá teus miolos.

Exemplos bem característicos (eu diria clássicos) de artistas enigma podem ser encontrados em todos os fundadores ou grandes continuadores da arte contemporânea: Marcel Duchamp, John Cage, Andy Warhol, James Joyce, etc. Mas também podemos ver enigma em cultivadores da simplicidade como Joan Miró, Manoel de Barros, Dorival Caymmi, Nirvana. Também pode significar uma relação com a arte. Para cultivarmos a apreciação.

“O jogo de palavras é um mecanismo maravilhoso porque em uma mesma frase exaltamos os poderes de significação da linguagem só para, um instante depois, aboli-los mais completamente. Para Duchamp, a arte, todas as artes, obedece à mesma lei: a metaironia é inerente ao próprio espírito.” (Octavio Paz, Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza.)

De onde vem a calma – Los Hermanos: hino de vikings. Literatura de Dostoiévski: lição de casa do menino diabo. Diógenes, o cínico: à procura de raves. A má música pop te fazendo sofrer quer te matar: mate-a antes. Antes de ela te tocar. O poder do auto-silêncio. Sorria. Tu nunca és tu.

Mito da beleza absoluta: “Eu gostaria de ser a calcinha da Angelina Jolie”. Meu caro, estar tão perto do milagre depois de um dia inteiro pode ser desapontador. Um pouco de distância, de mobilidade, um pouco de palavra e mau hálito, quem sabe… Quando a coisa aperta, você não pedirá ajuda para o sublime. Que a arte nos arme para mais de uma situação.

“A arte deve ser imunda”, “a arte deve ser clara”, “quero uma arte violenta”, “bom mesmo é o setor C3 do pavimento 14567 situado no quadrângulo 92. Apertemo-nos no congresso dos apertados!”. Quanta burrice! Prefiro o Led Zeppelin que soou como quis soar, a cada momento.

Os bravos, os mais bravos, se permitem a pureza, a fragilidade?

[Imagem: Banksy, “What Came First”]


Sobre o Autor

É formado em filosofia e escreve no blog As Pipas. Como Brizola, é contra "tudo isto que está aí", mas ao mesmo tempo a favor de um milagre que nasça do cruzamento de Guimarães Rosa com o baile funk.



One Response to SOBRE O GRANDE SARCASMO

  1. Júlio says:

    Caro Diogo… Tens de melhorar aí a tua ligação com o Brizola… Acabaste de ganhar uma fã que vota em Aécio!

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