Pirão rafinhabastosstandup

Publicado em julho 22nd, 2011 | por Revista Naipe

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OVERDOSE DE STAND-UP

O stand-up (humor em que um comediante se apresenta apenas com um microfone, de “cara limpa”) se enraiza cada vez mais no Brasil.

Grandes nomes como Rafinha Bastos e Marco Luque surgiram há alguns anos no cenário nacional e ganham muito dinheiro em uma hora e meia de piadas. As agendas culturais das maiores cidades pipocam com apresentações. Uma multidão de atores e metidos tenta fazer seus trocados metralhando o público com um material muitas vezes duvidoso. A demanda continua em alta.
A Naipe convidou dois conhecidos atores locais para discutir o fenômeno e suas implicações. Paulo Vasilescu, conhecido como a performática Zuleika Zimbábue, e Milena Moraes, uma das figuras mais atuantes da stand-up em Florianópolis, discutem com a pergunta “A proliferação do stand up estimula, banaliza ou exclusiviza o humor?” em cima da mesa.

A sessão de comentários, claro, é toda sua, leitor. Fique à vontade.

(Clique aqui para ler a discussão anterior, sobre a onipresença de música trash na balada).

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“O stand-up pode estimular a produção e humor no teatro. A questão é como e com que preparo isso vai ser feito”

[Por Paulo Vasilescu*]

Pra falar do fenômeno stand-up me foi feita uma pergunta base, que queria saber se o referido fenômeno, estimula, banaliza ou “exclusiviza” o humor.

Creio que no século 21 não corremos mais o risco de nenhuma forma “exclusivizar” toda uma produção (o modelo americano não “exclusivizou” a produção cinematográfica no mundo; nem o futebol, os esportes; nem as Havaianas, os chinelos; nem a Coca-cola, os refrigerantes – ainda que exerçam influência generalizada). Mas creio que o stand-up pode sim, estimular, tanto de forma profícua quanto de forma banal, a produção e a apreciação do humor no teatro.

A questão está no “como” vai ser feito e com que preparo. É nessa hora que o stand-up pode se tornar potencialmente perigoso.

Muita gente confunde aspectos estéticos do stand-up com simplificação e facilitação do teatro de humor. Ainda é um gênero teatral e requer, para fins de capacidade profissional e excelência ética, atores de verdade e não qualquer engraçadinho que faz sucesso contando histórias na festa de fim de ano da firma.

O primeiro problema é esse. Essa falsa política de inclusão democrática, na verdade promíscua, que atua com critérios equivocados, dando a velha e ultrapassada sentença: “Como você é engraçado, devia fazer teatro”. Mas a gente não ouve: “Como você tem mão firme, devia fazer cirurgias”; “Como você entende de remédios, devia receitá-los”; “Como você gosta de criancinhas, devia cuidar delas”. Olha que perigo…

O que nos leva ao segundo problema: a má compreensão do gênero e até de que se trata de um gênero teatral. Não ter figurinos e maquiagem não significa não ter atores. Contar coisas do seu próprio cotidiano não significa não ter dramaturgia. É preciso saber fazer muito “bem feito” para ter êxito na estética do “mau feito”. O bom improviso não é uma “genialidade” perante o desconhecido; ao contrário, é um acervo extenso e azeitado, sempre na manga, de experiências e conhecimento. E por aí vai. É aí que reside a banalização possível. VESTIR UMA CALÇA JEANS E UMA CAMISA XADREZ E CONTAR O QUE ACONTECEU NO ÔNIBUS, ENQUANTO VOCÊ IA PRO TEATRO, NÃO CONFIGURA, NECESSARIAMENTE, UM NÚMERO DE STAND-UP COMEDY. Ainda que repleto de estereótipos e palavrões, não é, infalivelmente, um bom stand-up. Se há uma fórmula, não é essa, a do caminho mais fácil, do TITRI ao TICEN.

Pois eu defendo a minha profissão, a de ator. Por isso, me obrigo a dizer que: o professor de cursinho, por mais engraçado que seja, não é um ator; o manezinho de sotaque carregado, por mais caricato que seja, não é um ator. E para fazer um bom stand-up, antes de mais nada, é preciso ser um bom ator ou atriz. Assim como não basta gravar um monte de CDs pra se tornar DJ; não basta baixar o Corel Draw pra se tornar designer e assim por diante. Podem vir a ser atores, DJs e designers, mas não podem queimar tantas etapas assim.

Enfim, o bom dos fenômenos é que eles passam. A banalização gera também a saturação. E quem tem inteligência e bom gosto bem treinados vai saber discernir o joio e o trigo e não vai gastar o seu suado salário pagando pra assistir os oportunistas do mercado, que sempre vão estar por aí.

Cabe ao público também (e não somente ao sindicato) garantir o nível profissional nos produtos culturais que nos oferecem por aí, seja stand-up, stand-down, stand-on-the-corner-of, stand-na-p…

*Paulo Vasilescu, a.k.a Zuleika Zimbábue, é ator e produtor cultural

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“E se as pessoas fossem ao teatro e desenvolvessem um pensamento crítico? Sou a favor da difusão do formato”

[Por Milena Moraes*]

Quando estudei o Século de Ouro Espanhol (1550-1660) foi inevitável a comparação com o futebol. Nesse período as encenações teatrais deixaram o interior das igrejas e passaram a acontecer nas praças e nos quintais. Espaços foram adaptados e surgiram os “corrales”, espécie de espaço teatral meio tosco. Foram escritos e encenados mais de 30 mil textos teatrais no período. Pensei: “Putz, e se fosse assim hoje, hein? E se as pessoas fossem ao teatro como quem vai a um estádio e desenvolvessem um pensamento crítico, e todos se achassem diretores teatrais como se acham técnicos de futebol?”

Isso está acontecendo com a stand-up comedy. Muita gente fazendo, muita gente vendo, gente à beça comentando. EU VOTO SIM! Sou a favor da difusão do formato, que se queira fazer e, principalmente, se queira ver uma manifestação sobre um palco.

Outro dia alguém me disse que todo mundo faz stand-up e eu complementei com um “e é DJ”. Também poderia dizer: “E é músico”, ou qualquer outra profissão que não demande uma prova dificílima a fim de entrar numa Ordem para finalmente ser praticada. No caso da stand-up comedy, não faz falta sequer muita infra-estrutura. Um comediante, um microfone e voilà! É a nova versão do banquinho e violão. A alegria dos produtores!

A stand-up comedy – show de humor onde o comediante sem personagem (há controvérsias em um nível pouca coisa mais profundo e filosófico) vai ao palco e faz graça com o cotidiano – surgiu nos EUA no século 19 com os Mestres de Cerimônia. Gente muito boa, e hoje em dia mais conhecida por outros trabalhos e projetos (Bill Cosby, Woody Allen, Bette Midler) já fez sua incursão pelo formato e ajudou a difundi-lo. Sem falar nos menos conhecidos como George Carlin, um dos pioneiros no humor de crítica social e ícone da contracultura nos anos 60.

No Brasil podemos citar José de Vasconcellos, Chico Anysio e Jô Soares. A retomada do formato e o ápice de sua popularização acontecem “agora-já-nesse-momento”. Em 2004, Marcelo Mansfield, acompanhado de Rafinha Bastos, Marcela Leal, Oscar Filho e outros comediantes, criaram o Clube da Comédia. A popularização aconteceu, em grande parte, graças ao youtube (e a quem resolveu investir nessa ferramenta, óbvio).

Essa tentativa de contextualizar historicamente a coisa tem a intenção de dar uma idéia de que não é qualquer um que faz stand-up. Cultura geral, além de senso de observação e originalidade na abordagem de temas pra lá de conhecidos de todo mundo, são importantíssimos para criar um bom material cômico. Muitos comediantes passam anos criando 40 minutos de material e o apresentam por muito tempo, sempre trabalhando o texto, eliminando observações, agregando outras, em busca da tão cobiçada perfeição. A maioria não tem formação na área teatral, aprenderam na prática. Mas não ter formação não significa não ter que estudar. Tudo isso pra dizer que: – NÃO, NÃO BASTA SER O ENGRAÇADÃO DA REPARTIÇÃO PRA FAZER STAND-UP!

Não importa se você é ator, professor, designer, jornalista, publicitário, corretor de imóveis, funcionário público, bombeiro… O stand-up é democrático, abre espaço pra todo mundo, mas se manter no meio depende de conseguir equilibrar um bom texto com uma boa performance, ou seja, estudar seu próprio desempenho. Segurar o público por uma hora só com o carão, um microfone e uma garrafinha de água… Não é pra qualquer um, baby. Bora suar a camiseta.

Com a popularização do formato corre-se o risco de a stand-up comedy se transformar em sinônimo de humor, em detrimento das outras formas de fazer rir. Sinceramente não penso que seja um risco tão grande assim. A comédia tem um ótimo apelo, seja de cara limpa ou não. Como ser teatral que sou, adoro ver um personagem se estatelando, overacting, brilhos, paetês, palhaços, homens vestidos de mulher e vice-versa. Eu e a torcida do Flamengo, convenhamos. Muita gente que acompanhava meu trabalho com o humorístico Teatro de Quinta foi conferir meu trabalho de cara limpa. Assim como gente que me viu de cara limpa foi conferir a comédia dramática Mi Muñequita. E a via tem mais de duas mãos. E a formação de platéia começa pelo que mais cativa, o humor de identificação.

* Milena Moraes é comediante, atriz e produtora independente

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9 Responses to OVERDOSE DE STAND-UP

  1. Daniel says:

    Ora, francamente. O nome da opinião do amigo Paulo é um só: “Reserva de mercado”. A arte demanda talento, e o talento não adquire na academia.
    Parem, por favor, com essa idéia comunista de que tudo merece uma regulamentação legal, um estatuto, um decreto. O processo de amadurecimento de um povo passa por fazer escolhas erradas, dentre elas, inclusive, a de assistir a um espetáculo ridículo.
    Causa espanto perceber que o totalitarismo já tomou, inclusive, os bastidores do teatro.

  2. Dennis says:

    Boa Milena, defende a arte e aos ranzinzas de plantão só lamento. beijo Milena.

  3. zuleika zimbábue says:

    nossa meninos…. qto ressentimento…. tb não é assim. existe stand up de qualidade. claro que tb tem muito oportunismo, mas o gênero stand up não ruim por si só… sertanejo universotário é!

  4. Celso says:

    Stand Up coisa de americanismo babaca! É o preço dessa democracia burguesa. Eles acham graça deles, mesmos. Tá faltando arte. Tá faltando criatividade pra muita gente. Para ser humorista hoje, tem de ter formação universitária. Pseudos intelectuais, sem graça! sem emoção! Tá faltando tudo pra essa gente, que só pensa primeiro em ganhar dinheiro. Pena que Chico Anisio, Jô e tantos outros humoristas maravilhosos estão ficando velho. Quando eles se acabarem não sei o que será do humor do nosso povo.

  5. Edilson Sá & Souza says:

    Que palhaçada é essa!? Humor!? Esses idiotas, medíocres, sem ética, sem formação artística e intelectual, imorais fazem humor? Só se for para um público do tamanho deles: medíocre! É um lamento assistir a tudo isso. A arte, a cultura, a comunicação estão perdidas. É lixo atrás de lixo. Depois da moda de jovens universitários apreciando o ‘sertanejo universitário’, vejo que não há solução.

  6. Milena Moraes says:

    Beijo, Zuleika! Beijo, Paulo! Como era a propaganda do Free mesmo? Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum… E não é? Obrigada às moças!

  7. Carol Gonzaga says:

    Adoro e já tive o prazer de assistir os dois. Milena e Paulo são talentosos, engraçados e sabem muito bem o que estão fazendo. Também sou defensora de um espaço democrático, afinal, o público cedo ou tarde mantém e elimina quem é bom e quem está se aproveitando da “onda”. Assim como temos muitos atores que percebem, com o tempo, que escolheram o caminho errado. Como jornalistas, engenheiros, advogados…enfim, os mais diversos tipos de profissionais que mesmo formados percebem que não fazem o que gostam (e o que têm vocação) e acabam mudando de ramo. Liberdade de expressão é legal, todos podem ter a chance. O público deve ser o julgador.

  8. Juliana Bassetti says:

    Ui! Só eu senti uma espetada no personagem Darci no texto do Paulão?
    Em tempo: os dois estão de parabéns e vi muitas coisas em comum nos dois textos. Inclusive os exemplos da “firma” e “repartição”.

  9. zuleika zimbábue says:

    “a alegria dos produtores” é ótimo!!! legal a forma que partimos de pontos de vista distintos, mas chegamos a conclusões parecidas. beijo Milena!

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