Pirão

Publicado em setembro 14th, 2014 | por Lucas Pasqual

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TEMPO

Baseado no conto Pai, de Marçal Aquino

O relógio de pulso desbotado já indicava dez minutos de atraso quando o ônibus fez um ruído e parou. O motorista não conseguiu dar a partida novamente.

– Quebrou. O ônibus quebrou! Desce todo mundo!

Josué olhou novamente para o relógio. Deveria ter batido o ponto há doze minutos.

A fila para sair tomou mais alguns segundos. O cobrador sinalizava para que todos tivessem cuidado, estavam numa ladeira. Ao lado de Josué, uma senhora de sapatos verdes resmungava enquanto dava passos tortos em direção à porta. Tomou a frente, pisou verde no dedão dele, tirou o pé rapidamente e desceu as escadas. Josué foi logo atrás, mas parou em meio aos outros passageiros.

– Quanto tempo até chegar o próximo ônibus? – gritou uma mulher que carregava um bebê.

– Não sei… Acho que vai demorar. Nesse horário, o trânsito é uma merda – o motorista deu de ombros, acendeu um cigarro e colocou o celular na orelha.

A mulher com o bebê balbuciou algum xingamento que Josué não conseguiu entender. Esperaram todos. Passaram-se cinco minutos. Depois, mais cinco. A rua estava apinhada de carros, mas poucos pedestres cruzavam pelas calçadas. Um senhor de meia idade, elegante e robusto, saiu de uma passagem em um prédio à esquerda. Analisou a situação, franziu o cenho, afastou-se. Tirou uma chave do bolso e abriu a porta de uma loja de sapatos. Mais outros minutos.

O bebê começou a chorar, a mulher que o carregava botou o peito pra fora e deu de mamar. A senhora de sapatos verdes lançou uma olhadela como quem se lembra de outras épocas, sorriu e foi, torta, até a vitrine da loja de sapatos. Um rapaz loiro, com a cara cheia de espinhas, não tirou os olhos. Do bebê.

O motorista e o cobrador conversavam animados sobre o jogo de domingo. Era clássico. Não concordavam se a arbitragem da última partida fora justa. Outros dois senhores meteram o bedelho e começaram os quatro a discutir a série B.

Algumas pessoas faziam caretas, outras reviravam os olhos. A senhora de sapatos verdes deu duas baforadas num cigarro que tinha acabado de acender, soltou a fumaça pelo nariz, deu meia-volta e subiu a ladeira. Seus passos verdes continuaram ecoando mesmo depois que ela virou a esquina.

Josué checou o relógio. Trinta e cinco minutos. O tique-taque dos ponteiros se confundia com o andar das pessoas que também subiam. Josué acompanhou o fluxo. O rapaz loiro veio atrás. Duas senhoras com sotaque gaúcho tagarelavam alto à frente.

– Acho que hoje chove. Aquela nuvem cinza ali tá crescendo.

– Pois é, espero que dê uma esfriada à noite, vamos fazer uma sopa lá em casa.

– Mas orna bem um pinhãozinho! Sabe que o mercado tem promoção hoje…

– Moço, tem horas?

Josué levou alguns instantes até perceber que o rapaz loiro se dirigia a ele. Olhou o relógio automaticamente e respondeu ligeiro. Tarde, muito tarde. O jovem agradeceu. Tentou puxar papo perguntando pra onde Josué ia. Pelo olhar confuso, Josué deduziu que o rapaz não entendera as coordenadas.

Andaram lado a lado, em silêncio, até o fim da rua. Mais uma espiadela no relógio. Já ofegante, Josué acenou com a cabeça, dobrou à direita e começou a correr. Ao passar pelas duas gaúchas, ouviu uma delas reclamando do preço do arroz.

Josué virou à esquerda duas vezes, depois à direita, cruzou uma passarela e enfim avistou o canteiro de obras no fim da quadra. Deixou de correr. Ainda arfando, entrou e bateu o ponto: uma hora e cinco minutos de atraso. Ficaria uma hora e cinco minutos depois do fim do expediente. Viu o chefe de relance e fez-se de morto: lidaria com aquilo mais tarde. Colocou o capacete amarelo, pegou seu martelo e caminhou até o lado de fora. O pó da parede caía sobre seus ombros e deixava a camisa avermelhada.

– ‘Dia, Josué.

O velho cumprimentou o pedreiro como fazia todos os dias desde que as obras foram iniciadas, há alguns meses. Antes que Josué respondesse, o homem parou, levou a mão ao peito e caiu. Os que estavam ao redor correram a acudi-lo. Josué percebeu que o homem não levantava e apressou-se até o outro lado da rua, gritando para o filho do velho. Parou ao portão da casa deles e avisou:

– Teu pai, Ataliba. Teu pai caiu na rua.

[Foto: Lali Masriera]


Sobre o Autor

Jornalista mato-grossense criado pela avó. Dispensa botinas e troca café por chá gelado sem pensar duas vezes. Equilibra o vício declarado por post-its com citações de seus seriados favoritos e acredita que o mundo seria um lugar melhor se RuPaul chegasse às massas.



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