Pirão textoansiedade_dentro

Publicado em julho 8th, 2011 | por Thiago Momm

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DESASSOSSEGO

Andamos inquietos. Sim, sabemos que andamos inquietos. Inquietos a ponto de não percebermos o quanto.

Acabo de ler dois textos muito bons sobre a ansiedade atual. Na Folha de S.Paulo, o colunista Gilberto Dimenstein escreveu sobre os “cérebros de pipoca” – a avaliação de psicólogos americanos de que há pessoas com um “distúrbio provocado pelo movimento caótico e constante de informações”. Com alterações químicas cerebrais, essas pessoas têm “dificuldade de se concentrar em apenas um assunto e de lidar com coisas simples do cotidiano, como ler um livro, conversar com alguém sem interrupção ou dirigir sem falar ao celular”. Você não conhece alguém assim? Não seria você mesmo?

No jornal inglês The independent, Johann Hari fecha o foco na leitura de livros, com um ponto de vista menos radical que o de quase sempre sobre o assunto. O grande mérito do seu artigo é se identificar com os milhões de leitores impacientes de hoje, em vez de apenas criticá-los. “É difícil admitir, mas todos sentimos: está se tornando quase fisicamente mais difícil ler livros”, diz Hari, esmiuçando por quê: “O espaço mental que o livro de papel ocupava está sendo erodido por milhares de armas de distração em massa que nos cerca.”

Ele cita um livro-referência sobre o assunto, The lost art of reading – why books matter in a distracted time [apenas em inglês; US$ 7,75 mais envio em amazon.com]. O autor, David Ulin, conta sempre ter lido tão naturalmente como quem come, até que sua mente passou a “implorar” que ele checasse seu email, Twitter ou Facebook, a partir do que entrou em conflito com a “sensação de que há algo lá fora” merecendo sua atenção.

Johann Hari relata sua própria experiência: ler com um computador ligado por perto, compara, é como “tentar ler no meio de uma festa com as pessoas gritando umas com as outras”. Dito isso, ele dá uma guinada no seu artigo e se permite a velha defesa dos livros – mas com argumentos ótimos, específicos. Na era da internet, livros de papel são algo que precisamos mais, não menos, porque eles “não bipam, lampejam, linkam ou te permitem assistir mil vídeos de uma só vez”.

Livros de papel são o que nos dão uma capacidade de concentração profunda, linear. Ele cita, de novo, David Ulin: “Ler é um ato de resistência em uma paisagem de distração. Requer que diminuamos o ritmo. No meio de um livro, não há opção senão ser paciente. Reconquistamos o mundo recuando um pouco, dando uma pausa do barulho”. O livro importa justamente por não ser imediato e “não saber o que aconteceu há cinco minutos no apartamento do Charlie Sheen”.

E os livros digitais? Nos EUA, o Kindle já contribuiu para uma queda de 9% das vendas de livros de papel este ano. É um produto tentador, como admite Johann, mas que pode perder a essência tranquila dos livros impressos à medida que linka mais e mais funções.

Para muitas pessoas, reconhecer o mérito das novas tecnologias com ressalvas é insuficiente: precisamos nos render incondicionalmente, sem mais perguntas. O ineditismo de um modo de vida parece sempre o grande apelo para a maior parte da sociedade. Como se fosse um desperdício viver misturando visões de futuro e hábitos passados. Como se apagar tudo que vemos de antigo na tela do presente desse vez, infalivelmente, a algo melhor. Mas e os sonos perdidos, as conversas desconexas, a ansiedade injustificada de tantos “atualizar página” no Facebook? Pois é.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to DESASSOSSEGO

  1. Marcio Barreto says:

    Parabéns galera !! Sempre com boas sacadas!!

  2. Yasmine says:

    Exatamente o que vem acontecendo comigo. Dá-lhe floral para concentração…

  3. Léo T. Motta says:

    Prazer, geração Y.

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