Pirão eletro

Publicado em agosto 28th, 2013 | por Danilo Calegari

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TRÂNSITO ELETRÔNICO

A Florianópolis em que vivo é aquela em torno das universidades.

Do Pantanal à Carvoeira, da Trindade até o Santa Mônica, estou sempre caminhando. Às vezes, vou a pé até a Lagoa ou alguma praia do leste: é o melhor modo de perceber e apreciar as coisas. É o passo do homem que consegue entender o que está ao seu redor.

Eu caminhava sempre sem música, mas por causa da barulheira dos carros decidi levar um MP3. O problema é que não tinha ideia do que ouvir. As músicas que escuto chegam até mim através de uma fulguração. Um jeito que eu nem sei, de tão instantâneo. Alguém compartilha no Facebook e eu curto. Um amigo me fala e eu procuro no YouTube. Sem ordem nem disciplina.

A vasta estrada do panorama da música é assim: impossível percorrer uma playlist sem hesitar ou passar para a faixa seguinte. É um pouco como andar nas ruas de Florianópolis: são muitos obstáculos e carros. Eles não param na faixa de pedestres, cortam o nosso caminho e fazem com que a gente mude de direção. Um tormento.

Há onze anos, quando estava para mudar para cá, meu irmão mais velho veio comigo e me explicou tudo direitinho. De como pegar ônibus até os nomes das estradas. Ele também me presenteou com um CD do Daft Punk e disse algo tipo “acho que tu vai gostar”. Foi aquela loucura! No meu primeiro ano aqui, eu voltava da universidade correndo para ouvir Around the World e subia as escadas igualzinho ao clipe.

Minha volta para Florianópolis coincidiu com o lançamento do novo álbum do Daft Punk. Não precisei de meu irmão para dizer qual a trilha sonora das férias.

Florianópolis era um paraíso monótono.
Hoje é pista de dança pra todo lado

Comecei a desviar dos carros dançando, fazendo uns passos de Disco sem escutar mais o buzinaço. Porque o novo álbum deles é bom e faz a gente esquecer do resto. São os mesmos robôs, só que com configurações diferentes. Nem saberia dizer por que o novo disco é bom. É bom porque é bom e também porque faz dançar na medida certa. O som de Random Access Memories é vintage, mas ultra modernoso, com músicas que parecem feitas em outra década, mas que soam atuais. Tem também convidados estupendos que influenciaram e apreciam Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter… o disco ficou uma bomba.

Ouvindo Giorgio Moroder (um dos convidados) falar e tentando um Moonwalker – totalmente anacrônico ao espaço/tempo – em uma das faixas da Edu Viera é que eu fui quase atropelado. Mas pior do que ser quase atropelado enquanto se escuta música é ser xingado pelo motorista. Só porque eu estava passando na faixa de pedestres. Fiz um paz e amor para ele e continuei caminhando direitinho.

Lá na Barra da Lagoa, estava cansado e então peguei um ônibus. Fui subir a escadinha solfejando Lose yourself to dance e torci o tornozelo. Com altas dores e o trânsito engarrafado, olhei bem para a Lagoa. Desci do busão nas Rendeiras e sentei em um banquinho. Pensei em quando as bruxas voavam por ali e também em quando Saint-Exupéry aterrissava no Campeche. Florianópolis era um paraíso monótono. Hoje é pista de dança para todo lado.

E na verdade acho até que cabe mais carro ainda aqui. Mais prédio também. Daí tudo vai ficar mais engarrafado do que já é. Então, vou dançar em cima deles, com meus amigos, quando os carros estiverem parados nas faixas.

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Sobre o Autor

Mora em Trento, Itália, onde trabalha como art coacher e colhedor de uvas entre agosto e setembro. Mudaria tudo se na próxima vida nascesse surfista e pescador no Farol de Santa Marta, em Laguna.



2 Responses to TRÂNSITO ELETRÔNICO

  1. Marcelo says:

    Você está em Floripa ou em Trento???
    Há alguma semelhaça? Talvez, afinal de contas em Trento também se vive em torno de uma universidade.

  2. Juninho De Luca says:

    Animal o texto. Uma mistura agradável de turismo, critica musical, comportamento, crônica e narrativa. Parabéns! Como um bom varietal, essa características são inseridas no texto de forma harmônica e suave.
    Tá favoritado!

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