Pirão Carros parados na ciclofaixa, em Florianópolis

Publicado em julho 8th, 2013 | por Fabricio Finardi

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VAZIO

[Foto: Stefano Maccarini]

São oito e meia da manhã em uma das rótulas mais movimentadas e barulhentas da cidade, mas hoje é diferente.

Não se ouvem vozes, buzinas, motores, nem sequer um sussurro. Os rostos estão pálidos, as pernas trêmulas. Trezentas pessoas de mãos dadas trocando olhares de consolo. Ao meu lado uma garota tenta segurar o choro, uso óculos escuros pra esconder os olhos mareados. Como é que a gente pode ficar tão vulnerável com a morte de uma pessoa que não conheceu e nem vai ter a chance de conhecer? A resposta me vem tão rápida quanto a pergunta: porque nós somos aquela menina deitada no asfalto gelado. Todos nós.

Bicicleta fantasma talvez seja um nome incorreto pra esse movimento. Elas são tão sólidas e reais quanto os carros que nos atropelam

O prazer que mora numa bicicleta vem da rara possibilidade de enxergar as coisas de verdade. As árvores, as ruas, os prédios, as pessoas. Suas cores, seus cheiros, o jeito como se movem, o jeito como respiram. Por alguns minutos você deixa de enxergar apenas borrões e pode ver a cidade como ela é, crua. Pedalar uma bicicleta é lembrar que temos pernas, braços, pulmões. Não importa se você é triatleta, se pedala de terno ou de biquíni. Não importa se a sua bicicleta custou doze mil reais ou duzentos. Todos sentem o mesmo prazer inexplicável. Algo que não dá pra medir ou pesar. Algo que nasce com a primeira bicicleta na infância e habita nossos corpos pra sempre.

Não foi a primeira bicicleta branca pendurada e nem vai ser a última. Já são sete em Florianópolis, três somente na SC 401. Bicicleta fantasma talvez seja um nome incorreto pra esse movimento. Elas são tão sólidas e reais quanto os carros que nos atropelam diariamente. Elas são um pouco do nosso medo e da nossa coragem. Um pouco do nosso desespero e da nossa esperança. Quem pedala diariamente sabe que o risco de não voltar pra casa é diretamente proporcional ao sentimento de liberdade. Colocamos os ossos nos trilhos de um trem e esperamos pelo melhor.

Creio que boa parte dos ciclistas não têm medo de morrer no trânsito. Nós temos medo é de morrer em vão. Morrer e as ciclovias não avançarem pela cidade. Medo da impunidade, da burocracia, da falácia. Medo da carro-dependência que vive a sociedade brasileira. Não existe amor nas estradas de SC.

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Sobre o Autor

Estudante de gastronomia apaixonado por farinha e fermento. Dirige exclusivamente motos e foge sempre que tem a oportunidade.



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