Pirão

Publicado em março 24th, 2014 | por Débora Rosseto

0

VIVER NÃO É PRECISO

então por que eu sinto que preciso saber?

Pela lógica, só poderia saber viver alguém que já tivesse vivido. Mais ou menos como qualquer outra coisa na vida, em que só saberia dirigir, por exemplo, quem já dirigiu. Mas isso é falso. É preciso mais do que isso (ou todo velhinho saberia quase tudo da vida). Então reformulo: só poderia saber viver quem tivesse tido mais de uma vida para experimentar. E taí uma coisa que não é possível, até porque quantas vidas seriam necessárias pra poder experimentar todos os caminhos que se abrem a cada manhã? E, sendo outro, os caminhos necessariamente seriam outros. Então não, nem com toda a imaginação do mundo isso seria minimamente realizável. E é aí que entram os livros, os filmes, a ficção em geral. Pra que a gente viva, de certa maneira, o que outros vivem. Ou viveram. Ou poderiam viver. Mas acreditar que vivemos o que está na ficção ou que somos personagens pode ser ainda mais problemático (e fazer com que você sofra de um mal – eu sofro – que faz com que você, bem, sofra). Como se todos os problemas do mundo também fossem seus. Como se cada coisa que acontece com você (micro) se encaixasse em alguma categoria (macro) de sofrimento que existe.

O que quero dizer (antes, perguntar) é: quem é que sabe viver?

Seu pai, que sempre achou que todo mundo fazia tudo errado (e assim parecia saber)? Ou que diz que todo mundo faz pouco, sem questionar o tanto que faz. Sua mãe, que desenhou pra você a vida perfeita que não pôde/soube viver? Aquela tia/vizinha/irmã/sogra que se agarra com tanto afinco ao que escolheu, sem nem perceber que foi nada mais do que isso: uma escolha dentro do que era possível pra ela, e que isso não significa que é o certo a se fazer?

Mesmo sua professora que sabe tanto, de tudo, ou o amigo que agora é vegan e entusiasta de bicicletas – duas posições que exigem muitas certezas, e que portanto podem transformar quem as escolhe em um tipo de guru ou pastor. Seu terapeuta que, gente!, estudou e leu tudo o que diz respeito a pessoas e suas vidas, além de entrar diariamente na cabeça de cinco ou dez pessoas (o que dá uma bela amostragem dos dilemas da vida como um todo).

É uma incapacidade danada, doída, e que exige dia após dia uma série de outras capacidades. Inclusive a capacidade de parar de perguntar, nem que seja por algumas horas.

Ou, ampliando ainda mais, aquele ídolo que cantou sua geração e que fez tanto sentido pra você, e pra tanta gente. O filósofo que você adora e que, percebendo que ninguém estava pensando no que é importante, fundou a Escola da Vida. Veja bem, uma Escola da Vida. Que sintomático. Mas mesmo ele: ele não parece saber muito o que fazer com o amor, por exemplo. Ou melhor (porque as categorias mais gerais e abstratas são mais fáceis): com o seu casamento.

Todas as pessoas que espalham suas certezas e opiniões nas redes sociais, fazendo com que o volume de coisas pensáveis e questionáveis dentro de sua cabeça, a quantidade de vozes, multiplique-se infinitamente. A verdade é que nenhum deles sabe como viver. Não mais do que eu ou você. E não temos a quem recorrer.

Mesmo aquela que me aconselhou (porque tudo que me aparece pode ser um conselho) a não me preocupar em entender, porque viver ultrapassaria qualquer entendimento. Ela quis, mais do que qualquer um, entender.

O que fazer com meu tempo livre? Como fazer pra ter mais tempo livre? Ter tempo livre é importante? Meu tempo livre implica que alguém esteja cuidando de coisas pra mim e, portanto, escraviza outros? A própria ideia de tempo livre implica que estou fazendo algo errado com o resto do tempo? Onde está o limite do sofrimento autoimposto? Do que devo abdicar em prol de algo maior pra mim, mais adiante, ou da felicidade e conforto de outros? O que me sustenta? O que devo aceitar, o que devo mudar, como saber?

Nem as pessoas mais iluminadas ou seguras saberiam responder à maioria dessas questões. Nem sabem bem o que fazer com seus relacionamentos, com seu trabalho, ou como criar seus filhos. Como ser. Aliás, acho que pra ser iluminado mesmo seria preciso não ter nada disso. Viver fora (pra dentro). Mas e o que saberia alguém que vê de longe (como um padre celibatário que opina sobre casamentos)?

Viver não é um conhecimento, não é nada que se possa adquirir. Muito menos passar adiante. A vida se dá aos incapazes – nós. É uma incapacidade danada, doída, e que exige dia após dia uma série de outras capacidades. Inclusive a capacidade de parar de perguntar, nem que seja por algumas horas. E fazer o que quer que seja que você – e o mundo – tenham decidido que precisa ser feito. E eu nem consigo decidir se têm ou não sorte aqueles que fazem sem nem se perguntar.

Acontece que viver não é preciso. É impreciso.

[Foto: marta maduixa]


Sobre o Autor

Faz de um pouco, tudo e sonha com um mundo no qual possa existir por escrito.



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑