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Publicado em novembro 5th, 2012 | por Stefano Maccarini

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ZONA DE DESCONFORTO

Só perder o sono é insuficiente.

É o que diz Luiz Henrique Cudo, integrante do ERRO Grupo de Teatro e da banda Nebula Dogs, produtor e residente da festa Young Folks.

Um insone só se torna um artista quando “consegue transpor aquela angústia e sofrimento pra outra forma de expressão, sai de uma zona de conforto pra tentar traduzir aquilo pra outra linguagem”. Além disso, quem simplesmente recorre a técnicas alheias está “produzindo qualquer outra coisa, informação, conhecimento, mas não arte”.

O cara “que vem de fora e vai morar na Lagoa, pinta o cabelo de uma cor diferente, anda descalço, vai em cafés e faz quadros pra decorar a Casa Cor” não seria artista. Luciano Martins, com “aquelas bochechas coloridinhas e cabeças grandes, não diz nada”.

Cudo já fez de tudo um pouco. Além dos créditos acima, foi apresentador do Patrola nos tempos em que os emails começavam a chegar na produção dos programas. Dirigiu o curta Cerveja falada, atuou em Sorria, você está sendo filmado, de Chico Caprário, fez parte das bandas Verano, Marte Attaca, Gaspop e do coletivo Expressão Sarcástica. Trabalhou até mesmo como modelo.

O último espetáculo de teatro de rua em que Cudo atuou foi HASARD, do ERRO. Por causa da peça, o mancebo se viu completamente desnudo em plena Felipe Schmidt, no centro de Florianópolis.

Veja aqui vídeo feito por Cudo especialmente para a Naipe, e leia abaixo entrevista com ele.



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Naipe – A TV, antes o meio de comunicação mais influente, agora tem a soberania posta em cheque. Como você, que apresentou o Patrola de 2001 a 2003, percebe a diferença entre o que TV era e o que é hoje?

Cudo – As gerações mudaram, na época em que eu apresentava o Patrola havia uma geração com outras referências de como fazer televisão e até mesmo de como assisti-la. A internet, que já existia na época, interferiu na maneira como você elabora uma informação sabendo que terá uma resposta quase imediata, sabendo que o espectador não está meramente passivo. Ele tem esse canal em que pode expor sua opinião em relação ao que está recebendo e a TV ainda está aprendendo a lidar essa colaboração do telespectador. A TV [hoje] se preocupa muito mais em dar algo que o espectador quer e da forma que ele quer, pois reconhece o poder de revidar pelas redes sociais.

Naipe – Qual o papel do teatro como forma de expressão nesse panorama de interatividade criado pela internet?

Cudo – O teatro também ainda tá se adaptando, absorvendo alguns elementos e maneirismos de linguagem pra justamente tentar falar uma língua que esteja sendo falada hoje. Conforme cada meio de comunicação e a tecnologia se desenvolvem, o teatro evolui em conjunto, não se mantém à parte. Por mais que você incorpore outros elementos tecnológicos, porém, ainda existe o fator humano, pois o teatro só acontece quando um ator está na frente de uma plateia e uma ação se desenvolve, acontece esse jogo.

Naipe – Quanto de um personagem é teu quando você o elabora?

Cudo – Meu trabalho passa por uma construção colaborativa, onde o ator também é um criador. Trabalhamos no ERRO grupo com essa ideia – direção e dramaturgia propõem um estilo e a partir daí os atores criam improvisações e jogos, trazendo outros elementos e pesquisando para construir a cena juntos. É essencial a presença do ator nesse sentido, pois ele não está apenas atuando como mero intérprete, não como um agente que recebeu uma partitura e executa, [o ator] tem essa carga criativa também.

Naipe – Hoje o acesso à informação, a métodos e a equipamentos está muito mais difundido. Com essa democratização da produção artística, qual a maior barreira que o artista encontra para realizar suas aspirações?

Cudo – Ter acesso aos meios de produção e técnicas não torna ninguém um artista. A principal dificuldade seria a inquietação e motivação do fazer artístico. Se o cara se sente artista ou possui uma aptidão e habilidade técnica – do tipo desenhar, atuar, tocar um instrumento – mas não tiver uma inquietação, uma vontade de romper com algo ou um querer contrariar alguma coisa, não existe arte. [Mas] se um insone consegue transpor aquela angústia e sofrimento pra outra forma de expressão, aí está o que torna o cara um artista, alguém que sai de uma zona de conforto pra tentar traduzir aquilo pra outra linguagem. Você pode ter facilidade, aprender técnicas, estudar num conservatório durante anos e ser um exímio interprete de piano, mas se não tem uma inquietação por trás, um desejo de sair do lugar-comum e de tirar as pessoas do lugar-comum, não existe arte, você tá simplesmente utilizando técnicas que outros artistas usam, você tá produzindo qualquer outra coisa, informação, conhecimento, mas não arte.

Você pode ter facilidade, aprender técnicas e ser um exímio interprete de piano, mas se não tem uma inquietação, um desejo de sair do lugar-comum e de tirar as pessoas do lugar-comum, não existe arte

Naipe – Sobre as dificuldades de ser um artista full time aqui em Florianópolis, como você enxerga a cidade em um cenário nacional de produção cultural?

Cudo – Mudou bastante desde que eu vim morar aqui, em 1993. Percebo uma espécie de evolução no fazer artístico, nos meios de produção e na difusão das artes. O volume de produção aumentou muito, porém viajando eu percebo que não há uma representatividade, principalmente no meio teatral e musical. São poucas as referências que as pessoas lá de fora tem de quem produz arte em Santa Catarina. Eu não sei se é uma dificuldade fazer essas coisas circularem e romper com esse provincianismo ou se é a cidade que trabalha em torno de uma produção artística e cultural de salão, de entretenimento e embelezamento no estilo “cool Lagoa” – que seria o cara que vem de fora e vai morar na Lagoa, pinta o cabelo de uma cor diferente, anda descalço, vai em cafés e faz quadros pra decorar a Casa Cor. Essa ideia eu acho que ainda é muito presente no fazer artístico daqui, eu não vejo inquietação em quem produz isso, não vejo uma intenção de romper com algo.

Se vejo uma exposição de um cara desses, Luciano Martins, não me causa nenhum desconforto, aquelas bochechas coloridinhas e cabeças grandes não me dizem nada, não me tiram o sono e não mudam a minha vida, é como entrar na Imaginarium e ver uma série de objetos de decoração. Eu estou mais tensionado a acreditar que em Florianópolis o cara, querendo ter sucesso e agradar, vai passar por esses meios que vão estar sempre próximos de um objeto decorativo, de uma peça publicitaria, que tem que ser bem sucedida e vender bem o produto, e que pra mim não é arte.

Naipe – O espetáculo de teatro de rua HASARD, que o ERRO Grupo apresentou recentemente em algumas cidades brasileiras, se caracterizava pela imposição de autoridade, diversos tipos de jogos e a aleatoriedade da vida cotidiana. Como foi o caminho até a estreia?

Cudo – Houve uma série de discussões, leitura de textos, exibição de vídeos, jogos e improvisações. O trabalho começou em janeiro e estreamos comecinho de agosto. Trabalhamos muito também com manuais, por exemplo, manual da bolsa de valores e manual de sobrevivência em condição de guerra, trazendo textos e transformando em improvisações. Depois, focando na direção e na dramaturgia, chegamos à idéia final do espetáculo, onde quatro atores realizam quatro cenas simultâneas em quatro lugares diferentes, para levar a ideia de acaso, deixar o publico com a sensação de que ele está sempre perdendo alguma coisa.

Agora a ideia é ir além. Ainda não sabemos como, pois acabamos de terminar a primeira temporada desse espetáculo e ainda tem muita coisa que pretendemos refazer, melhorar, reformular, sempre com a ideia de trabalhar com esses elementos do acaso, inerentes ao jogo de azar.

Se eu vejo uma exposição de um cara desses, Luciano Martins, aquelas bochechas coloridinhas e cabeças grandes não me dizem nada, não me tiram o sono e não mudam a minha vida

Naipe – Houve momentos do espetáculo em que, dependendo da aleatoriedade das cartas, o teu personagem ficava completamente nu. Como foi ficar pelado em plena Felipe Schmidt e como foi a recepção da audiência?

Cudo – Não foi algo simples, não só por mim, mas pelo grupo. As pessoas podem julgar algo gratuito, uma situação de choque simplesmente com o objetivo de “causar”. Mas tínhamos consciência de que aquilo era o caminho natural dentro do contexto. Por mais que dependesse da escolha do público ao final, dentro do percurso e da pesquisa era o caminho a ser seguido. A cena do nu representa uma ideia de colapso do sistema, do jogo, onde você não tem mais nada, colocou tudo em jogo e não tem mais nada a não ser você mesmo: isso sustenta muito a ideia de ficar nu em pleno centro da cidade. No espetáculo, como na vida, não se sabe se somos jogadores ou peças do jogo, muitas vezes achamos que temos domínio de nossas ações mas estamos sendo levados a tomar essa decisão por um sistema muito maior. Tentamos passar essa mensagem nas entrelinhas e gerar esse questionamento.

Foi difícil porque são os nossos corpos que estão ali e sabíamos que muita gente iria passar naquele horário sem ciência do contexto, mas essa é a nossa condição como teatro de rua. Teve muita discussão não só pelo fato da exposição mas das consequências dessa exposição, buscamos amparo legal e todas as questões foram levantadas. Eu acho que no final das contas as escolhas foram as mais acertadas.

Naipe – Por onde você quer que a sua carreira artística passe?

Cudo – No momento eu estou satisfeito, então estou procurando um momento de instabilidade pra poder ter uma escolha a fazer. No momento eu continuaria da mesma forma, mas aí entro em conflito com o que entendo como fazer artístico. Eu não tenho claro por onde eu quero passar, deixo ao sabor do acaso e diariamente escolho se vou pra direita ou esquerda. É importante ter um planejamento mas eu acho que deixar as coisas acontecerem e tomar minhas decisões a partir disso também é um caminho a ser seguido.

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Sobre o Autor

Fotógrafo wanabe, estudante de engenharia, baterista sem ritmo, acha que morar fora do Brasil é bom mas é uma merda, e morar no brasil é uma merda mas é bom.



2 Responses to ZONA DE DESCONFORTO

  1. Marco Z says:

    Grande Cudo!!

    • Jerry says:

      quero comprar uma camrea digital pra bater umas fotos em baladas durante a noite pra vende-las c3a9 claro ! rsrsrr !nc3a3o precisa ser uma camrea que filme, pq nc3a3o vou filmar as festas ! vc acha que uma camrea de 4MP ou 5MP terc3a1 uma resoluc3a7c3a3o legal pra uma foto que mede cerca de 10 X 15 / 13 / 18 ? o que acha ? ajude-me e me de outras dicas que vc acha importante ! obrigado !

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